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(Japão – ano de 2546)
O som de uma explosão reverberou nas paredes dos antigos prédios decrépitos. Não era como o de uma pequena bomba acendida por um adolescente desregrado, querendo diversão em meio ao caos. Era, na verdade, um estouro ensurdecedor. Um bombardeio vindo dos canhões de outro país. Era o som da guerra.
A rua estava deserta. Era habitada, talvez, pelos fantasmas restantes do Choque Oriental. Governo e povo entraram em um conflito em que não se podia dizer o vencedor. Os homens de poder foram mortos, expulsos ou arruinados, ao mesmo tempo em que a população mergulhou na desordem. O país inteiro estava submergido em armas, bombas e desgraça.
O Japão não tinha mais seu Sol nascente. O céu era escuro, e assim ficaria para sempre. A fumaça das fábricas destruiu a paisagem azulada que se tinha ao olhar para cima. As ruas também seriam totalmente escuras, se não fosse o neônio extremamente duradouro achado em Plutão, nos tempos de paz.
Takeshi caminhava sobre o asfalto sujo e bicentenário, com o rosto coberto por um sombreiro chinês, os cabelos negros descendo pela nunca num rabo de cavalo. Usava um kimono cinza escuro, amarrado por um obi preto, em que se pendurava sua katana. Era como um ronin da época feudal, tão distante daqueles tempos malditos. Seus chinelos de madeira batiam contra o chão a cada passo: o único som a ser ouvido. Avançava, olhando para todos os lados, procurando qualquer criatura viva. Não havia realmente ninguém ali.
Dobrou algumas esquinas, entranhando-se na antiga cidade de Tókio. Agora, era possível ouvir o barulho de estouros. As bombas estavam longe, ele sabia, e com certeza eram de pequeno porte, usadas apenas para depredar aglomerados ínfimos.
Depois de algum tempo de caminhada, Takeshi passou a observar a presença de alguns bêbados errantes, vagabundos espreitando novas vítimas ou loucos desabrigados. Um grupo de quatro velhos bebia saquê em volta de uma fogueira alimentada por pneus arrebentados e jornais antigos. O ronin passou por eles, atento aos seus movimentos. Os bêbados apenas o olhavam, amedrontados.
Mais à frente, um mendigo vestindo trapos se arrastou até os pés do jovem. Fez força para chegar ao seu destino e rolou para o lado, caindo de barriga para cima. Sua boca estava escancarada, com apenas alguns dentes que, por sinal, estavam podres. A criatura olhou para Takeshi e movimentou a boca, emitindo grunhidos. Tentava fazer um pedido, mas a fraqueza nem isso possibilitava. O garoto passou as pernas por cima do corpo moribundo, atravessando o obstáculo, e continuou sua caminhada.
Dezenas de parias acompanhavam seus passos, curiosos, mas amedrontados, escondendo-se atrás de sombras, tentando manter alguma distância. Seguiam-no, aglomeravam-se. A cada quilômetro, mais uma quantidade de malditos se juntava à multidão. Takeshi os ignorava, mantendo apenas um pouco de cautela, para não ser surpreendido por qualquer louco.
À medida que andava, ficava mais próximo do núcleo da cidade. O lugar para qual estava se encaminhando era o centro do caos, um campo de guerra para a população. Guerra que, às vezes, não tinha um motivo concreto.
Luzes podiam ser vistas ao longe, por trás de edifícios flagelados pelo tempo. Respirando fundo, encaminhava-se para seu sonho niilista, em meio a um embate inútil de ideologias falhas, partindo-se da idéia de que o país já estava perdido, e que era impossível melhorar. Então avançava, passo a passo, seguido por um exército de parias desgrenhados que não tinham noção do que estava acontecendo.
E também não tinham noção os que estavam naquela batalha incessante. Não sabiam que Takeshi estava se dirigindo até lá, e não sabiam, também, quem era este sujeito. Não faziam idéia de que Takeshi era a morte, e que a morte livraria o Japão daquela degradação.
O samurai sentiu seus pés sendo presos por alguma coisa. Olhou para baixo, desconfiado. Um bêbado se agarrava em seus calcanhares, olhando para ele, com olhos brilhantes e desesperados. Takeshi balançou as pernas, no ímpeto de se livrar daquele obstáculo nojento. Conseguiu se soltar e, enfim, voltou a caminhar.
No entanto, novamente foi freado por aquela criatura inconveniente. Desta vez, não soltou seus pés. Apenas observou o bêbado, sentindo uma mistura de asco e piedade. Não adiantava fazer a sua vontade, ele pensou, pois, dali a alguns instantes, todos estariam mortos.
— O senhor não teria uma moeda para dar a este pobre homem? — disse o pária, com uma voz fraca e dificultosa. Respirava sem facilidade. Uma pessoa comum recusaria seu pedido. Takeshi sabia que o que o velho queria era saquê. Qual seria o problema de deixar aquela alma pútrida morrer inebriada? Afinal, não tinha culpa de estar sedento por álcool. O verdadeiro motivo disso, na verdade, era a situação crítica em que se encontrava o país. Tanto ele quanto todos os seus amigos rotos tinham motivo para querer se inebriar. A vida era dura, para eles.
Infelizmente, o garoto não tinha saquê sobrando para oferecer ao homem. Havia dentro das dobras de seu kimono uma garrafa com a bebida, mas estava reservada para os segundos antes de seu ato final. Não que não se importasse com os outros, mas tinha que se preocupar primeiro com ele mesmo. Só havia uma coisa que podia fazer, como demonstração de clemência pelo velho moribundo.
— Por favor, senhor. — recomeçou o sujeito. Lágrimas saíam de seus olhos. — Preciso comer alguma coisa. Estou com fome!
Takeshi retirou a lâmina de sua espada da bainha, olhando para o coitado. Sabia que não fazia diferença adiantar sua morte em alguns minutos, mas achou mais prudente. E se seu plano falhasse? Poderia ser morto antes de concluir a missão.
Por isso, sem pensar muito mais, temendo mudar de idéia, arrancou a cabeça do homem com um movimento rápido da katana. O membro rolou algumas vezes pelo chão, caindo com a face virada para cima. Takeshi guardou sua arma e deu uma última olhada, podendo perceber que seu semblante era desesperado, triste, amaldiçoado.
Por fim, depois de os espectadores se afastarem mais um pouco, sentindo-se ameaçados pela lâmina cruel do ronin que estava à sua frente, voltou a seguir seu caminho.
As explosões, agora, faziam um barulho mais alto. Uma música eletrônica, constituída por bips e batidas selvagens, ecoava com nitidez. Já estava bem próximo.
Demorou cerca de uma hora para chegar, enfim, ao local em questão. O grupo de mendigos que o seguia diminuiu bastante, e parou de vez de ir atrás dele quando encontrou o início do tumulto costumeiro. Takeshi deveria abrir caminho pela multidão e chegar ao centro exato da confusão para, então, realizar o que fora lá fazer. Sentia um frio incomum, cedido pelo medo e pelo nervosismo.
Jovens se digladiavam com qualquer objeto capaz de machucar. Um adolescente, ostentando cabelos pontiagudos e coloridos, passou correndo por ali, agachando-se e acendendo uma bomba. Com um sorriso diabólico no rosto, voltou depressa para o lugar de onde tinha vindo, no meio do aglomerado de delinqüentes. Uma explosão de fogo vivo pode ser vista, e também a morte de três pessoas. Os corpos voaram longe, ensangüentados, com alguns pedaços queimados.
Começou seu percurso. Retirando pela segunda vez sua espada da bainha, correu em direção à barreira humana pela qual deveria passar. Movimentou a lâmina, cortando quem quer que estivesse em sua frente. Acertou um pescoço, fazendo com que a cabeça caísse inanimada para trás. Depois, perfurou o coração de uma mulher, fazendo-a gritar e tombar. Decepou o braço de um homem qualquer e arrancou fora a perna de um sujeito gordo, atingindo, depois, seu olho. Um lamento grave saiu de sua boca, antes de morrer.
Percebendo o perigo que chegava, algumas pessoas se afastavam. Takeshi empunhava a espada, com a ponta da lâmina apontada para frente, levemente inclinada para cima, com suas mãos localizadas em frente à virilha. Dava passos nem muito largos, nem muito curtos, e arrancava a alma de quaisquer pessoas que estivessem à sua frente. Assim continuou, drenando a vida dos combatentes que não podiam prever a morte. Golpes rápidos percorriam o ar, fazendo sangue esguichar e manchar suas vestes.
Foi obrigado a cessar seu ataque, por alguns instantes, perante a visão de um sujeito carregando uma metralhadora. Usava um capacete de aviador e kimono velho. Alguns fiapos de bigode estavam entre a boca e o nariz, e desciam até o queixo. Seu rosto estava distorcido em uma careta alucinada: fato que fez com que Takeshi se atentasse.
Os estalidos velozes e constantes ressoaram, subitamente, e o ronin foi obrigado se movimentar mais rapidamente do que nunca. Embora parecesse frio e absurdamente efetivo, o medo castigava seu espírito. Um arrepio tomou conta de seu corpo.
Mantendo feições inexpressivas, Takeshi saltou por cima do inimigo, em uma cena improvável, caindo com leveza atrás de seu futuro alvo. Nenhuma bala o acertou, no trajeto, e o sujeito também não teve tempo de se virar. Estava agora de costas para o garoto, atirando cegamente para todos os lados. As balas atingiam outras pessoas, que berravam e caiam, quando não tinham a cabeça estourada por um tiro certeiro, ao acaso.
Takeshi, sem demora, atravessou o homem nas costas, fazendo lâmina sair pelo peito, depois de passar mortalmente pelas costelas e pelo pulmão. Um grito áspero substituiu o som das balas vindas da metralhadora, e o atirador caiu pesadamente sobre o chão.
O samurai não olhou para sua vítima. Consciente de que estava chegando a hora, voltou a dar alguns passos.
Agora, aproximava-se de uma pequena praça. Pequenas brigas eram paradas por Takeshi, que golpeava sem dó. Não precisava prolongar os poucos momentos de vida que ainda tinha. Após limpar a praça dos delinqüentes, subiu sobre um chafariz velho e inutilizado, para então realizar seu objetivo.
Buscou a garrafa de saquê que guardara em sua manga, pegando juntamente a ela um objeto metálico e cilíndrico. Tirou a rolha da garrafa, deu quatro grandes goladas para acabar com o líquido e deixou a garrafa cair, espatifando-se no chão. Seu coração pulsava, sua cabeça estava em uma confusão inexplicável.
Com as mãos tremendo, concentrou-se no cilindro que havia pegado. Retirou uma tampa em uma das extremidades, puxando junto um aglomerado de placas e fios. Começou a trocar alguns filamentos de lugar, ligando uns aos outros. Havia uma seqüência específica, para evitar que o dispositivo fosse ativado acidentalmente. Fez isso até que só restasse um fio. Parou para contemplar o último momento de vida, em meio a corpos sangrentos e ruídos desagradáveis. Respirou algumas vezes, olhou para os lados. Estava exatamente no ponto central da antiga Tókio, prestes a eliminar um grande problema de proporções absurdas.
Aquele era seu sonho niilista, e estava prestes a realizá-lo.
Uma lágrima escorreu dos olhos que sempre esconderam quaisquer sentimentos. Takeshi suspirou uma última vez, para ligar os últimos fios. Seus dedos tatearam a borracha isolante, movimentaram-se convulsivamente, em uma tentativa frustrada de fazer com exatidão o contato entre as pontas de cobre.
Antes que pudesse realizar este feito, sentiu uma dor intensa em sua nuca. Sua visão escureceu, seus sentidos se apagaram. Sua mão ainda se mexeu um pouco, mas não o suficiente para fazer a ligação. A bomba caiu no chão, sem potência, fazendo com que a morte de Takeshi fosse em vão.
Pois o Japão estava intacto. Permaneceu vivo, para ser corroído pouco a pouco pelos monstros que o habitavam.