14/01/2010

Resenha: Os Grandes Símios, de Will Self


"Os Grandes Símios" talvez seja um dos livros mais loucos e insanos que alguém pode ler. No começo, o leitor pode ficar extremamente horrorizado com os termos e situações que Will Self dispõe no romance. É claro que isto não é, de forma alguma, um ponto negativo. Talvez para uns, sim, mas para os que admiram uma experiência literária semelhante a um sonho estranho e, ao mesmo tempo, real, o livro pode ser um banquete.

Esta é a história de Simon Dykes, um artista plástico residente de Londres, que, depois de uma noite cheia de bebida, drogas e sexo com sua namorada, Sarah, acorda em um mundo dominado por chimpanzés. Ao se deparar com a cena, principalmente com a de uma macaca-Sarah deitada em sua cama, Simon tem um ataque agressivo, de modo que um grupo de chimpanzés o busca e o leva para uma clínica psiquiátrica. Acontece que, neste mundo, Dykes é dado como um "chimp" louco que pensa ser um humano.

É depois disso que Zack Busner, um psiquiatra renomado, começa a cuidar de Simon, levando-o pouco a pouco a recuperar a sua "chimpunidade". Isso quer dizer que ele vai ter que aprender a aceitar o contato  com outros símios, voltar a ter controle sobre seu corpo e, principalmente, ver a si mesmo como um chimpanzé, e não como um homem.

Will Self trás em seu romance um coquetel de personagens singulares e bem construídos (embora muitas vezes bizarros), inversão de valores e pensamentos dignos de um psicopata, mergulhado em uma Londres verdadeiramente selvagem.

Uma observação interessante é que, ao longo da história, o leitor vai se acostumando (provavelmente) com o mundo de Self. As situações e os atos dos chimpanzés não parecem tão estranhos, de modo que a "chimpunidade" vai se assemelhando cada vez mais com a humanidade.

O que se pode perceber, muitas vezes, é que podemos ser (e somos!) tão selvagens e animalescos quanto os chimpanzés.

07/12/2009

Fardo Pulsante (Servos de Ambor - Parte 1)

Primeira parte de uma série de contos que intitulo "Servos de Ambor". Não sei em quantas partes será dividia, e nem quando postarei um novo conto, mas deixo aqui seu início, para quem se interessar.

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Havia neve sobre tudo. Os altos pinheiros estavam com suas folhas embranquecidas e o chão se estendia como um grande manto alvo, cobrindo a terra, a grama e as pequenas pedras: tudo o que deveria estar ali, mas que, aparentemente, não estava. Havia apenas um filete descoberto, que se prolongava continuamente, formando uma estrada estreita.

    Um homem caminhava por lá, a passos médios, envolto por uma grande capa. Carregava um embrulho pouco maior que um punho fechado, meticuloso, temendo que o objeto se danificasse.

    Havia algumas horas, quase morrera. Chegou a sentir a visão ficar turva, os pensamentos divagarem, o sangue escorrer por sua pele. Isso aconteceu por causa de um bando de assaltantes que, quando o sujeito recusou lhes entregar suas posses, atacou-o com lanças afiadas. Sete pessoas impulsionando suas armas contra o homem quase indefeso. Ele bem que tentou lutar, mas antes de desferir seu primeiro golpe, foi atingido por três ou quatro lanças, de modo que sua espada escorresse pelas mãos paralisadas.

    A partir daí, foi acertado várias vezes pelos bandidos. Ficou ali, no chão, inerte, com sangue vazando por várias feridas. Quase perdeu sua vida. E perderia, se não fosse salvo.

    Ouviu uma voz indefinida chamá-lo, sentiu alguém o levantando, como se uma grande mão o erguesse do chão e o pusesse de pé. Não conseguia lembrar com exatidão das primeiras palavras, pois ainda estava atordoado. Lembrava-se de que não havia ninguém lá. Não enxergava a fonte dos sons, por mais que procurasse. Aos poucos, foi entendendo o que estava sendo dito.

    “Você gostaria de viver? Posso salvá-lo da morte. Você me daria seu coração para continuar vivo?”. O homem apenas assentiu, agarrando-se à última esperança que tinha. Chorava, trincando os dentes. Não agüentava de tanta dor. “Dê-me seu coração, Garlano, e você terá uma nova vida. Enquanto eu puder guardar seu coração, sua alma estará dentro de seu corpo”. Garlano concordou.

    O que aconteceu a seguir era impossível de se ter certeza. Só se lembrava de que uma dor absurda encheu seu peito. A sensação era tão desagradável que o homem não resistiu e acabou por tombar.

    Quando percebeu que estava de pé, vivo e com um uma carga indefinida sendo carregada pela mão esquerda, seu salvador já havia ido embora e a dor já havia se passado. Recordava-se de algumas últimas palavras, mesmo sem tê-las ouvido, como se estivessem marcadas em sua mente: “Continue sua caminhada. Leve seu fardo e não o prejudique. Eu o guiarei até o lugar certo”.

    E foi assim que Garlano começou a andar sem destino concreto, confiando em alguém que não podia ver. Passou, então, por florestas de coníferas cobertas de neve, por lagos congelados e animais procurando abrigo do frio. Não tinha o que comer, e foi obrigado a caçar. O sol já estava se pondo quando capturou um coelho, acendeu uma fogueira e comeu, deitando-se em seguida para tentar dormir. Estranhamente, não conseguia adormecer. Apesar do cansaço que o dia deveria lhe proporcionar, não sentia sequer uma gota de sono. Ficou sentado, esperando que o sol reaparecesse por entre os galhos das árvores.

    Usou o tempo para pensar sobre tudo o que tinha acontecido. Até aquele momento, a curiosidade tinha sido ínfima o suficiente para rejeitar o pensamento que vinha à cabeça. Será que aquilo tudo era um engano? Poderia muito bem estar delirando na hora em que ouviu a voz. Mas era impossível. Sentiu seu corpo, tocou sua pele. Olhou para o embrulho que levava. Se tudo fosse falso, estaria morto.


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Quando chegou a manhã, enfim, Garlano voltou à caminhada. Já tinha andado tanto que suas pernas deveriam estar doendo. Mas não sentia nada, a não ser uma estranha serenidade. Era como se fosse uma pedra ou tronco abatido: parecia que seu corpo era imutável, que seu sangue não corria. Aliás, não sentia sangue nenhum em suas veias.

    Parou, de maneira abrupta, respirando pesadamente. Retirou sua capa para olhar para algum pedaço de pele. Não sentiu frio quando ficou descoberto. Observou seu braço, mais branco que o normal; suas veias eram incolores. Retirou a luva. Tocou de leve seu pulso. Não sentia o costumeiro pulsar estabelecido pelo sangue. Sua pele estava gélida.

    Inicialmente, ficou atordoado. Pensou novamente na possibilidade de estar morto. Será que era um espírito errante que ainda não encontrara seu caminho? Será que morrera e ficara preso no mundo material? Afastou as perguntas e se pôs a andar mais uma vez. Não adiantava nada ficar pensando e se fazendo indagações. Quando chegasse aonde quer que estivesse indo, saberia de tudo. Ele esperava.

    À medida que andava, percebia que a neve estava ficando escassa, que a grama verde podia ser vista de novo. Em pouco tempo, já não havia neve alguma. Mais algumas poucas horas foram suficientes para que o verde também passasse a sumir de forma parcial. Só havia umas poucas moitas, certos fiapos de capim no chão e um número igualmente pobre de árvores desfolhadas espalhadas pelo terreno.

    Enquanto andava, não percebeu que suas pernas praticamente se moviam sozinhas. Não estava cansado e não sentia muitas dores. Não escolhia seu caminho, apenas caminhava.

    Quando a escuridão caiu mais uma vez, deitou-se novamente sobre o chão gelado para tentar dormir. Não sentiu fome, por isso não caçou nenhum coelho. Também não teve sono, o que o impossibilitou de conseguir dormir. Passou a madrugada tentando esclarecer, sem sucesso, toda a situação. Nenhuma idéia nova sobre o que estava acontecendo.


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Ao amanhecer, Garlano continuou sua trajetória. O mato reapareceu, a neve voltou a cair. Começou a subir uma grande montanha, apoiando-se ao tronco de árvores, de tão íngreme e irregular que era o terreno. Teve que fazê-lo utilizando apenas uma mão, já que a outra segurava o fardo precioso. Demorou cerca de duas horas para alcançar aquilo que ele achava ser o topo. Quando chegou e olhou para baixo, ficou tonto. A montanha, na verdade, era um monte de terra circular que envolvia uma grande cratera. Abaixo dele, havia um despenhadeiro muito alto. O início do abismo estava tão longe que era difícil enxergá-lo.

    Em forma de espiral, havia uma estrada que começava na outra extremidade do aro e terminava no fundo do enorme buraco, bem abaixo dele. No centro daquele imenso vazio, havia uma torre. Uma construção cilíndrica, toda feita de pedras irregulares, que ia até mais ou menos o meio da altura do despenhadeiro. Forçando a vista, Garlano pôde ver que havia várias pequenas janelas, postas de forma simétrica, e que algumas estavam iluminadas internamente.

    Equilibrando-se com facilidade, percorreu o arco necessário para chegar à outra extremidade do abismo e, em seguida, começou a descer pela estrada que levava aos pés do despenhadeiro. Demorou mais de uma hora para alcançar a metade do caminho, onde ficavam os últimos andares da torre. Lá embaixo, postados a cada lado do portão que dava acesso ao interior da construção, estavam dois homens. A única coisa que podia perceber da aparência de ambos é que estavam vestindo roupas desprotegidas e não padronizadas, e que levavam cada um uma espada em seus cintos.

    Chegou ao fim de seu trajeto ao passar de mais uma hora. Assim que atingiu o solo plano que cercava a torre, os dois homens foram até ele, carregando semblantes hostis. Estavam prontos para atacar, caso fosse necessário.

    ― O que o trás aqui, forasteiro? ― Perguntou um dos sujeitos. Tinha cabelos negros e longos, rosto magro e pele pálida. Cruzou seus braços, mostrando impaciência. Garlano não soube o que responder. No momento em que iria abrir a boca para tentar explicar o que havia ocorrido havia poucos dias, sentiu-se paralisado.

    “Mostre a ele o embrulho”, pôde ouvir. Era seu salvador entrando novamente em contato com ele. Garlano estendeu a mão, obedecendo. Assim que isso aconteceu, o homem que havia se dirigido a ele descruzou os braços e mudou sua expressão para uma que indicava surpresa. “Você foi mandado por Ambor. Diga isso”.

    ― Ambor me enviou. ― Falou firmemente. Esperou que mais instruções fossem dadas, mas não ouviu mais nada. As palavras saíram de sua boca como se ele não as estivesse planejando: ― Vim para me tornar servo de Ambor, para deixar minha vida em sua posse. Para que meu coração pulse em suas mãos.

    Houve uma pausa.

    ― Venha conosco. ― Disse o guarda que ainda não tinha falado. Era tão pálido e magro quanto o outro, mas possuía cabelos de cor parecida com a de palha seca. Garlano os seguiu, passo a passo, carregando seu fardo. Andaram até o grande portão de entrada da torre.

    Enquanto as grandes pranchas de madeira se abriam, Garlano sentiu um tremor inquietante. Preparou-se para o que quer que viesse a acontecer. Quando a passagem ficou livre, entrou atrás dos dois guardas. Entrou para conhecer seu futuro.

30/11/2009

Resenha: Black Flag, de Valerio Evangelisti


Utilizando uma narrativa violenta e doentia, o italiano Valerio Evangelisti, autor da trilogia "Magus" e de "O Inquisidor" e "Correntes da Inquisição", constrói, a partir de três histórias alternadas, um livro inovador e marcante. O primeiro capítulo é o início de uma história, em um tempo mais próximo do presente, onde uma tragédia no Panamá, condicionada pelo ataque de estadunidenses, acontece. Há a presença de um grupo de prisioneiros americanos portadores da "porfiria", doença responsável por algumas lendas sobre lobisomens. Tal doença, na verdade, é um dos focos principais do livro. Esta história só tem continuidade no último capítulo.

Passada na Guerra da Secessão, a história principal, de capítulos maiores, conta a trajetória de Pantera, um pistoleiro mexicano, que também é um "palero", uma espécie de xamã. O feiticeiro é capturado por um bando de mercenários liderado por Jesse James, lendário cowboy de gatilho rápido. Acaba sendo tratado não como prisioneiro, mas como um membro do bando. Em meio ao caos de assaltos a fazendas e do escalpelamento de inimigos, Pantera conhece Koger, um sujeito possuidor de uma doença que o faz parecer um lobisomem, Molly, uma prostituta irlandesa que se apaixona por ele, Lobo Branco, um índio velho portador de um cachimbo capaz de proporcionar experiências psicodélicas, Bellegarrigue, um médico francês anarquista que pretende usar o bando para conseguir seu objetivo, e vários outros personagens insanos e absurdos.

A história que se mescla com a de Pantera se passa em um futuro distante, onde a terra, sobretudo "Paradice", a cidade em que vive Lilith, a protagonista, é habitada somente por loucos. A esta altura, a tortura e o sofrimento são encarados como formas de afeto, a morte é vista com indiferença e o estupro é corriqueiro. Todos são assim, sem exceção.

Considerado por alguns a obra lançada no Brasil mais próxima do New Weird, Black Flag quebra o conceito que costumamos ter sobre fantasia e ficção científica, reinventando e fundindo vários estilos de forma bastante efetiva.

03/11/2009

Antologia: Solarium II

Faço hoje meu primeiro post que não contém um conto. Agora, pra divulgar a antologia "Solarium II", que será lançada dia 14 pela editora Multifoco. Meu conto "A Sala das Garrafas" faz parte do livro. Também está participando o Duda Falcão, do Museu do Terror.
Infelizmente não poderei comparecer ao lançamento, mesmo morando em Petrópolis, relativamente perto. Ficam aqui, então, a capa e o convite.
Abraços!




05/10/2009

Ronin

Resolvi reescrever  o conto "O País do Sol Poente", que ficou, agora, com o título "Ronin". Espero que tenha ficado melhor!


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(Japão – ano de 2546)

O som de uma explosão reverberou nas paredes dos antigos prédios decrépitos. Não era como o de uma pequena bomba acendida por um adolescente desregrado, querendo diversão em meio ao caos. Era, na verdade, um estouro ensurdecedor. Um bombardeio vindo dos canhões de outro país. Era o som da guerra.

A rua estava deserta. Era habitada, talvez, pelos fantasmas restantes do Choque Oriental. Governo e povo entraram em um conflito em que não se podia dizer o vencedor. Os homens de poder foram mortos, expulsos ou arruinados, ao mesmo tempo em que a população mergulhou na desordem. O país inteiro estava submergido em armas, bombas e desgraça.

O Japão não tinha mais seu Sol nascente. O céu era escuro, e assim ficaria para sempre. A fumaça das fábricas destruiu a paisagem azulada que se tinha ao olhar para cima. As ruas também seriam totalmente escuras, se não fosse o neônio extremamente duradouro achado em Plutão, nos tempos de paz.

Takeshi caminhava sobre o asfalto sujo e bicentenário, com o rosto coberto por um sombreiro chinês, os cabelos negros descendo pela nunca num rabo de cavalo. Usava um kimono cinza escuro, amarrado por um obi preto, em que se pendurava sua katana. Era como um ronin da época feudal, tão distante daqueles tempos malditos. Seus chinelos de madeira batiam contra o chão a cada passo: o único som a ser ouvido. Avançava, olhando para todos os lados, procurando qualquer criatura viva. Não havia realmente ninguém ali.

Dobrou algumas esquinas, entranhando-se na antiga cidade de Tókio. Agora, era possível ouvir o barulho de estouros. As bombas estavam longe, ele sabia, e com certeza eram de pequeno porte, usadas apenas para depredar aglomerados ínfimos.

Depois de algum tempo de caminhada, Takeshi passou a observar a presença de alguns bêbados errantes, vagabundos espreitando novas vítimas ou loucos desabrigados. Um grupo de quatro velhos bebia saquê em volta de uma fogueira alimentada por pneus arrebentados e jornais antigos. O ronin passou por eles, atento aos seus movimentos. Os bêbados apenas o olhavam, amedrontados.

Mais à frente, um mendigo vestindo trapos se arrastou até os pés do jovem. Fez força para chegar ao seu destino e rolou para o lado, caindo de barriga para cima. Sua boca estava escancarada, com apenas alguns dentes que, por sinal, estavam podres. A criatura olhou para Takeshi e movimentou a boca, emitindo grunhidos. Tentava fazer um pedido, mas a fraqueza nem isso possibilitava. O garoto passou as pernas por cima do corpo moribundo, atravessando o obstáculo, e continuou sua caminhada.

Dezenas de parias acompanhavam seus passos, curiosos, mas amedrontados, escondendo-se atrás de sombras, tentando manter alguma distância. Seguiam-no, aglomeravam-se. A cada quilômetro, mais uma quantidade de malditos se juntava à multidão. Takeshi os ignorava, mantendo apenas um pouco de cautela, para não ser surpreendido por qualquer louco.

À medida que andava, ficava mais próximo do núcleo da cidade. O lugar para qual estava se encaminhando era o centro do caos, um campo de guerra para a população. Guerra que, às vezes, não tinha um motivo concreto.

Luzes podiam ser vistas ao longe, por trás de edifícios flagelados pelo tempo. Respirando fundo, encaminhava-se para seu sonho niilista, em meio a um embate inútil de ideologias falhas, partindo-se da idéia de que o país já estava perdido, e que era impossível melhorar. Então avançava, passo a passo, seguido por um exército de parias desgrenhados que não tinham noção do que estava acontecendo.

E também não tinham noção os que estavam naquela batalha incessante. Não sabiam que Takeshi estava se dirigindo até lá, e não sabiam, também, quem era este sujeito. Não faziam idéia de que Takeshi era a morte, e que a morte livraria o Japão daquela degradação.

O samurai sentiu seus pés sendo presos por alguma coisa. Olhou para baixo, desconfiado. Um bêbado se agarrava em seus calcanhares, olhando para ele, com olhos brilhantes e desesperados. Takeshi balançou as pernas, no ímpeto de se livrar daquele obstáculo nojento. Conseguiu se soltar e, enfim, voltou a caminhar.

No entanto, novamente foi freado por aquela criatura inconveniente. Desta vez, não soltou seus pés. Apenas observou o bêbado, sentindo uma mistura de asco e piedade. Não adiantava fazer a sua vontade, ele pensou, pois, dali a alguns instantes, todos estariam mortos.

— O senhor não teria uma moeda para dar a este pobre homem? — disse o pária, com uma voz fraca e dificultosa. Respirava sem facilidade. Uma pessoa comum recusaria seu pedido. Takeshi sabia que o que o velho queria era saquê. Qual seria o problema de deixar aquela alma pútrida morrer inebriada? Afinal, não tinha culpa de estar sedento por álcool. O verdadeiro motivo disso, na verdade, era a situação crítica em que se encontrava o país. Tanto ele quanto todos os seus amigos rotos tinham motivo para querer se inebriar. A vida era dura, para eles.

Infelizmente, o garoto não tinha saquê sobrando para oferecer ao homem. Havia dentro das dobras de seu kimono uma garrafa com a bebida, mas estava reservada para os segundos antes de seu ato final. Não que não se importasse com os outros, mas tinha que se preocupar primeiro com ele mesmo. Só havia uma coisa que podia fazer, como demonstração de clemência pelo velho moribundo.

— Por favor, senhor. — recomeçou o sujeito. Lágrimas saíam de seus olhos. — Preciso comer alguma coisa. Estou com fome!

Takeshi retirou a lâmina de sua espada da bainha, olhando para o coitado. Sabia que não fazia diferença adiantar sua morte em alguns minutos, mas achou mais prudente. E se seu plano falhasse? Poderia ser morto antes de concluir a missão.

Por isso, sem pensar muito mais, temendo mudar de idéia, arrancou a cabeça do homem com um movimento rápido da katana. O membro rolou algumas vezes pelo chão, caindo com a face virada para cima. Takeshi guardou sua arma e deu uma última olhada, podendo perceber que seu semblante era desesperado, triste, amaldiçoado.

Por fim, depois de os espectadores se afastarem mais um pouco, sentindo-se ameaçados pela lâmina cruel do ronin que estava à sua frente, voltou a seguir seu caminho.

As explosões, agora, faziam um barulho mais alto. Uma música eletrônica, constituída por bips e batidas selvagens, ecoava com nitidez. Já estava bem próximo.

Demorou cerca de uma hora para chegar, enfim, ao local em questão. O grupo de mendigos que o seguia diminuiu bastante, e parou de vez de ir atrás dele quando encontrou o início do tumulto costumeiro. Takeshi deveria abrir caminho pela multidão e chegar ao centro exato da confusão para, então, realizar o que fora lá fazer. Sentia um frio incomum, cedido pelo medo e pelo nervosismo.

Jovens se digladiavam com qualquer objeto capaz de machucar. Um adolescente, ostentando cabelos pontiagudos e coloridos, passou correndo por ali, agachando-se e acendendo uma bomba. Com um sorriso diabólico no rosto, voltou depressa para o lugar de onde tinha vindo, no meio do aglomerado de delinqüentes. Uma explosão de fogo vivo pode ser vista, e também a morte de três pessoas. Os corpos voaram longe, ensangüentados, com alguns pedaços queimados.

Começou seu percurso. Retirando pela segunda vez sua espada da bainha, correu em direção à barreira humana pela qual deveria passar. Movimentou a lâmina, cortando quem quer que estivesse em sua frente. Acertou um pescoço, fazendo com que a cabeça caísse inanimada para trás. Depois, perfurou o coração de uma mulher, fazendo-a gritar e tombar. Decepou o braço de um homem qualquer e arrancou fora a perna de um sujeito gordo, atingindo, depois, seu olho. Um lamento grave saiu de sua boca, antes de morrer.

Percebendo o perigo que chegava, algumas pessoas se afastavam. Takeshi empunhava a espada, com a ponta da lâmina apontada para frente, levemente inclinada para cima, com suas mãos localizadas em frente à virilha. Dava passos nem muito largos, nem muito curtos, e arrancava a alma de quaisquer pessoas que estivessem à sua frente. Assim continuou, drenando a vida dos combatentes que não podiam prever a morte. Golpes rápidos percorriam o ar, fazendo sangue esguichar e manchar suas vestes.

Foi obrigado a cessar seu ataque, por alguns instantes, perante a visão de um sujeito carregando uma metralhadora. Usava um capacete de aviador e kimono velho. Alguns fiapos de bigode estavam entre a boca e o nariz, e desciam até o queixo. Seu rosto estava distorcido em uma careta alucinada: fato que fez com que Takeshi se atentasse.

Os estalidos velozes e constantes ressoaram, subitamente, e o ronin foi obrigado se movimentar mais rapidamente do que nunca. Embora parecesse frio e absurdamente efetivo, o medo castigava seu espírito. Um arrepio tomou conta de seu corpo.

Mantendo feições inexpressivas, Takeshi saltou por cima do inimigo, em uma cena improvável, caindo com leveza atrás de seu futuro alvo. Nenhuma bala o acertou, no trajeto, e o sujeito também não teve tempo de se virar. Estava agora de costas para o garoto, atirando cegamente para todos os lados. As balas atingiam outras pessoas, que berravam e caiam, quando não tinham a cabeça estourada por um tiro certeiro, ao acaso.

Takeshi, sem demora, atravessou o homem nas costas, fazendo lâmina sair pelo peito, depois de passar mortalmente pelas costelas e pelo pulmão. Um grito áspero substituiu o som das balas vindas da metralhadora, e o atirador caiu pesadamente sobre o chão.

O samurai não olhou para sua vítima. Consciente de que estava chegando a hora, voltou a dar alguns passos.

Agora, aproximava-se de uma pequena praça. Pequenas brigas eram paradas por Takeshi, que golpeava sem dó. Não precisava prolongar os poucos momentos de vida que ainda tinha. Após limpar a praça dos delinqüentes, subiu sobre um chafariz velho e inutilizado, para então realizar seu objetivo.

Buscou a garrafa de saquê que guardara em sua manga, pegando juntamente a ela um objeto metálico e cilíndrico. Tirou a rolha da garrafa, deu quatro grandes goladas para acabar com o líquido e deixou a garrafa cair, espatifando-se no chão. Seu coração pulsava, sua cabeça estava em uma confusão inexplicável.

Com as mãos tremendo, concentrou-se no cilindro que havia pegado. Retirou uma tampa em uma das extremidades, puxando junto um aglomerado de placas e fios. Começou a trocar alguns filamentos de lugar, ligando uns aos outros. Havia uma seqüência específica, para evitar que o dispositivo fosse ativado acidentalmente. Fez isso até que só restasse um fio. Parou para contemplar o último momento de vida, em meio a corpos sangrentos e ruídos desagradáveis. Respirou algumas vezes, olhou para os lados. Estava exatamente no ponto central da antiga Tókio, prestes a eliminar um grande problema de proporções absurdas.

Aquele era seu sonho niilista, e estava prestes a realizá-lo.

Uma lágrima escorreu dos olhos que sempre esconderam quaisquer sentimentos. Takeshi suspirou uma última vez, para ligar os últimos fios. Seus dedos tatearam a borracha isolante, movimentaram-se convulsivamente, em uma tentativa frustrada de fazer com exatidão o contato entre as pontas de cobre.

Antes que pudesse realizar este feito, sentiu uma dor intensa em sua nuca. Sua visão escureceu, seus sentidos se apagaram. Sua mão ainda se mexeu um pouco, mas não o suficiente para fazer a ligação. A bomba caiu no chão, sem potência, fazendo com que a morte de Takeshi fosse em vão.

Pois o Japão estava intacto. Permaneceu vivo, para ser corroído pouco a pouco pelos monstros que o habitavam.

28/08/2009

A Profecia de Wapasha

(Estados Unidos – 2567 a.p)

Naquela noite, o velho índio se sentou em frente ao aglomerado de membros de sua tribo, iluminado por uma grande fogueira. Estava de pernas cruzadas e, entre elas, havia um cacto de forma quase esférica. Todos olhavam para ele, atentos, ávidos a saber o que Wapasha preveria.

― Hoje, vocês saberão o futuro de nossa gente ― bradou o profeta. Tinha a pele escurecida e cabelos longos e brancos. Havia pinturas em sua face e apetrechos por todo o seu corpo. ― Com a ajuda dos espíritos do peiote, revelarei o que acontecerá com nossa tribo daqui a algumas eras.

Ninguém falava nada. Os índios estavam realmente ansiosos.

O velho, então, partiu o cacto em três pedaços, mastigando por um bom tempo cada um deles. Fechou os olhos, compenetrado em seus pensamentos, esperando que os efeitos chegassem. Depois de cinco minutos, levantou-se, fazendo com que os espectadores tomassem um susto, prestando ainda mais atenção.

Com os olhos ainda fechados, braços esticados para frente e com a palma das mãos exposta, começou seu discurso, com voz trêmula:

“Não vejo nossa gente. Homens de pele branca chegaram aqui e tentaram nos expulsar. Além disso, guerras dizimaram os nativos de nossa terra. Não posso ver mais nada sobre nós”.

O público emitiu uma expressão de espanto. Quando se sentaram em frente àquela fogueira, não esperavam ouvir coisas ruins. Porém, o medo atacou aquela gente muito cedo. O xamã voltou a falar:

“Posso ver um futuro mais distante. Um futuro muito além de nosso fiasco. Vejo crianças chorando. Crianças de pele branca, crianças de pele negra, todas juntas e em paz, mas chorando. Bebês tentam sugar leite dos seios dos cadáveres de suas mães. Todos ali são magros. Só têm pele e osso”.

“Há um grupo de jovens comendo alguma coisa. Oh, não! Estão dividindo um braço e, no meio deles, há outro jovem, despedaçado e em agonia, sujo do próprio sangue. Outro grupo tenta lamber o chão com a intenção de se nutrir com um pouco de água. Nossos deuses serão abandonados e substituídos, em pouco tempo, por um único deus, considerado mais poderoso do que qualquer outro”.

A cada fala, um sussurro desagradável dos que ouviam. Algumas mulheres já choravam.

O velho começou a andar de um lado para o outro, procurando, com os olhos fechados, algo que só existia em sua mente, ou então em uma época distante.

“Quase não vejo o verde. Alguns troncos ressecados estão fincados no chão, mas neles não se pode ver nenhuma folha. A única coisa verde que vejo é um rio. Não é um verde natural, mas pulsante, vivo demais”.

As pessoas se assustaram quando, depois de falar, o profeta suspirou fortemente, com o peito estufado. Estava ofegante, agora. Caiu de joelhos e colocou as mãos no rosto. Recomeçou seu brado mas, agora, com uma voz que não era dele.

“A natureza morrerá. A terra estará seca, desprovida de fertilidade e, quando o solo morrer, ninguém poderá tocar nada. Todos estarão sem a capacidade do tato. O desejo pelo material será imenso, mas inútil. Nunca mais será vista qualquer planta”.

“Ainda existirá água, mas esta não matará a sede de ninguém. Não obstante, seu sabor será ruim, seu cheiro insuportável. O simples contato do líquido com um ser vivo será suficiente para matá-lo, e este será o motivo principal do fim das criaturas vivas. Quando isso acontecer, e, enquanto ainda houver gente, não existirá emoção. Nenhum ser será capaz de sentir amor ou ódio: todos serão indiferentes quanto à situação alheia. Esta será também a morte de todos os espíritos.

“O vento também cessará. Não haverá ar. Assim, será impossível que os homens respirem. Os sintomas de tal tragédia serão a escassez de idéias e a inexistência de pensamentos. Todos os humanos nascerão débeis, munidos apenas com o instinto. Suas almas serão mais fracas do que a de uma formiga, jamais evoluindo”.

“Por último, morrerá o fogo. Quando este consumir as paredes de cada lar, irá à extinção. Não mais existirão espíritos, não mais existirão idéias, não mais existirá a inspiração divina. Como conseqüência, nem mesmo os deuses sobreviverão. Máquinas metálicas e autônomas, portadoras de um espírito artificial, terão a capacidade de qualquer entidade, podendo criar vidas e acessar planos imateriais feitos pelo próprio homem. Nossos deuses ficarão tão insatisfeitos, que deixarão de existir”.

Wapasha desabou, com a cara no chão. Parecia morto.

Os outros índios ainda olhavam para ele, tremendo. Estavam atordoados pela previsão. Esperavam algo mais agradável e, ainda, sobre seu próprio povo. Ficaram satisfeitos, pelo menos, de não participar de tal destruição.

Alguns se levantaram, olhando para a fogueira, atentos, para ver se a chama se apagaria. Outros deixavam que seus cabelos se movimentassem com a brisa e abriam os braços, sentindo o ar em movimento. Temiam que o vento parasse de soprar.

Dois ou três, porém, apenas pediram aos deuses que não os abandonassem. Era um teste para ver se seus protetores ainda estavam ali, zelando por eles.

15/08/2009

Tengu

Desafyo do Cryacontos, passado pela Rita, em que eu deveria pescar três palavras no dicionário, escolher uma delas e usá-la como tema. Dentre as três, fiquei com "honra", que me lembrou o Bushido, inspirando-me a escrever este conto.

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A sala permanecia pacata e silenciosa. O único som que podia ser ouvido era o da cascata, lá fora. Noburu estava sentado de pernas cruzadas sobre uma almofada, de frente para uma baixa mesa retangular. Bebia o resto de saquê que havia em uma pequena vasilha côncava. Quando terminou, bateu na mesa.


Imediatamente, uma jovem garota, com a cara toda branca, maquiada com pó de arroz e trajando um kimono claro e florido, entrou pela porta de correr.

― Mais alguma coisa, senhor? ― perguntou ela, fazendo uma reverência. Noburu olhou para ela, rosnando baixo. Exibia a tonsura de um samurai e um bigode que descia pelas laterais da boca.

― Mais saquê. ― Respondeu. A moça saiu pela mesma porta, então, voltando alguns minutos depois. Trazia o que o cliente havia pedido. Colocou tudo sobre a mesa, encurvou-se, encostando a testa no chão, e saiu. O samurai tocou o vasilhame com os lábios, provando o vinho que o ocupava. Fez uma careta.

Socou a mesa de novo, três vezes, com mais força do que antes. Novamente, a gueixa apareceu pelo portal.

Antes que ela pudesse perguntar o que havia de errado, Noburu se levantou, com o recipiente na mão. Olhou raivosamente para a garota.

― O que aconteceu, senhor? ― Ela indagou, tocando o chão com a testa, como de costume. Quando ela estava novamente de pé, a vasilha de saquê acertou seu rosto, manchando a maquiagem. Ela passou a mão pela bochecha, avermelhada pela colisão, e observou, de cabeça baixa, o homem à sua frente.

― O saquê estava frio. Esquente mais um pouco. ― Sentou-se de novo, tranqüilamente, esperando outra reverência.

No entanto, a jovem não foi embora. Ficou olhando para Noburu, com uma expressão cruel. As extremidades internas de suas sobrancelhas se abaixaram, seu cenho se enrugou. Ela respirou fundo.

― Ande! ― gritou ele. Pondo-se mais uma vez de pé e começando a rosnar. ― Quero meu saquê o mais rápido possível.

Mas ela não obedeceu. Um frio quase impossível passou pelo cômodo. Noburu tremia. Além dessa sensação incômoda, passou a perceber presenças alheias no ambiente. Uma tontura invadiu sua cabeça, de modo que ele pensasse ter viste manchas escuras por toda parte. Talvez tivesse bebido demais.

Foi quando percebeu que, na realidade, os borrões que via não era coisa de sua cabeça, e que estava mais lúcido do que nunca. Era como se sombras intensas brotassem de todas as superfícies. Sombras dotadas de consciência.

Massas negras e imateriais irrompiam do piso de madeira. Emergiam do submundo, de todos os cantos da sala. Apareciam pela parede, pelos rodapés, pela mesa de centro e pelo teto. A gueixa apenas olhava para ele, com um ar maligno, até que, pouco a pouco, as sombras foram tomando forma. Passaram a se assemelhar a silhuetas humanas, que dançavam de um lado para o outro, flutuando no ar. Não tinham rosto, não tinham corpo: apenas aquele volume negro.

Noburu observava aquilo tudo com extremo pavor, e seu rosnado se transformou em um gemido impotente. De uma hora para outra, a moça pareceu sofrer uma mutação. Sua pele se quebrava como porcelana, ao passo que cacos iam caindo no chão, sem emitir estalido algum. Seu rosto ficou vermelho, seu nariz agora era longo e com a ponta arredondada. Cabelo, barba, bigode e sobrancelhas: tudo isso era denso e branco. Sorria, com caninos pontiagudos.

Sem que o samurai se desse conta ― estava compenetrado na imagem do demônio que aparecera na sua frente. ―, todas as sombras haviam se modificado. Seus rostos eram como o da criatura que o encarava, e vestiam-se com o mesmo kimono azul listrado de sua matriz.

O homem retirou sua espada da bainha, ainda com medo, pensando em uma saída. Aquilo tudo parecia muito irreal para ele. Resolveu atacar os clones que enchiam a sala, todos iguais. Golpeou cada um deles, mas, quando a lâmina passava por seus corpos, as imagens simplesmente se fragmentavam, tornando-se invisíveis. Fez isso com todos eles, com exceção do que havia se transformado primeiro. Aquele era o que mais lhe dava medo. Ainda não tinha coragem para atacá-lo.

Quando todos os outros demônios haviam sumido, Noburu ficou de frente para o principal, que acompanhava seus movimentos com a cabeça. Aquele, pensou o homem, tentando ser otimista, era como todos os outros. Bastava cortá-lo com a katana, que logo ele desapareceria. Empunhando a espada com as duas mãos, à sua frente, berrou. Era um grito de guerra, um grito de desespero.

Tentou atingir a cabeça, movendo a lâmina verticalmente, de cima para baixo. Porém, quando o fio estava exatamente entre os olhos do demônio, foi impossibilitado de prosseguir. Seu corpo foi erguido do chão, sua espadada estilhaçou-se e seus músculos ficaram paralisados.

Noburu tentou se mover, mas foi em vão. Seu inimigo estava com a mão em sua garganta. Um medo que corroia suas emoções fazia com que lágrimas descessem pelo seu rosto. Seu coração pulsava em um ritmo selvagem. O nariz da criatura estava rente ao seu; olhos arregalados o observavam.

― Vamos fazer uma visita ao Makai. ― Disse o tengu, em tom irônico. Da maneira como estavam, samurai e demônio submergiram, atravessando o chão e indo direto para as sombras do inferno.

***

Notas: Os tengus são, de acordo com as tradições japonesas, demônios que pregam peças em samurais arrogantes e monges budistas desvirtuados. Possuem cara vermelha e nariz prolongado, ou então rosto de corvo (como também aparecem em algumas histórias). Os demônios japoneses são chamados de yokais, ou youkais, e habitam o Makai, que é o inferno da mitologia do país.

20/07/2009

Ventre Puro

Foi caminhando por uma alameda qualquer que encontrei aquele saquinho de sementes. A princípio, cheio de problemas e praticamente passando fome, pensei que fosse uma bolsa de moedas. Quando vi que dentro do embrulho só havia um monte de grãos esféricos, decepcionei-me.

Mesmo assim, resolvi levar para minha cabana aquela porção e, satisfeito por ter algo novo, mesmo que fosse uma coisa que não valesse dinheiro algum, plantei em frente à janela do meu quarto. No dia seguinte à semeadura, um conjunto de uns sete brotinhos já podia ser visto.

No entanto, no terceiro dia observei que as pequenas plantas começaram a secar. Em pouco tempo, as pontas recém-nascidas morreram. Todas, exceto uma. Um pezinho que estava exatamente no meio dos outros permaneceu vivo, intacto. Era o único que continuava a crescer.

Com uma semana, o caule, envergado e cheio de folhas finas, já possuía cerca de um metro de altura. Na ponta, começava a crescer um botão.

Mais algumas poucas semanas se passaram e, como conseqüência, a planta atingiu uma altura de mais de dois metros. Somente a visão daquele vegetal tão grande era suficiente para me desnortear, de tão impressionantemente surreal.

Depois de ficar deste tamanho, o tronco, que já era grosso como o de uma árvore, mas verde como grama jovem, parou de crescer. Pensei que fosse a hora de ela morrer mas, para minha felicidade, percebi que agora, dia após dia, o botão, que se pendurava na extremidade do caule, mais fino que o resto da planta, começou a ganhar tamanho. O que antes era apenas uma bolinha da mesma dimensão de um dente de criança foi crescendo cada vez mais até que, depois de dois meses após o dia em que plantei as sementes, ficou pouco maior que um barril de cerveja.

Sempre que podia, encostava minha orelha naquele casulo, alisava-o e sorria ao sentir uma leve pulsação. Parecia que aquela grande cápsula tinha vida. Antes, quando tive noção de que aquela coisa era como um coração enorme, assustei-me bastante, chegando ao ponto de me afastar mas, quando me acostumei, podia dizer que estava apaixonado por ela.

Sonhava todo dia com minha companheira. Por duas vezes, durante o sono, vi uma mulher saindo de um grande casulo, transformando-se em uma borboleta. Porém, antes de ganhar asas e sair voando, a criatura dizia algumas palavras, sorria, abraçava-me. Usava um vestido azul claro, mesma cor de seus olhos, combinando com seus cabelos louros.

Não passava de sonhos, claro, mas comecei a acreditar com convicção que aconteceria exatamente aquilo. Passei treze dias esperando o nascimento de minha diva, sentado com as pernas cruzadas. Seria bela como a mais bela das deusas gregas...

Até que, em uma quarta-feira, presenciei o que tanto esperava: o grande botão começou a pulsar mais do que em qualquer outra ocasião. A cápsula balançava tanto que fazia o tronco da planta emitir um rangido melancólico. Eu não conseguia agüentar de tanta emoção.

A bola se pôs a descascar. De baixo para cima, quatro faces se enrolaram, como pétalas murchando, dando espaço a uma nova camada que protegia a moça que nasceria. Agora, era visível uma bolsa dura, feita de um material translúcido que parecia uma espécie de vidro flácido. Dentro dela, uma mulher repousava em sono profundo.

Meu coração bateu forte. Um cheiro semelhante ao de cerejas maduras me fez ficar tonto, inebriado por uma sensação extremamente agradável. Cheguei perto, ajoelhei-me em frente à minha princesa e observei, rindo, todo o processo que seguiria.

A camada começou a romper, fazendo com que a essência doce se acentuasse. Aguardei, atencioso, enquanto a garota se projetava para fora da película transparente, ainda dormindo.

Mas, bruscamente, a bolsa arrebentou, fazendo com que o corpo que era contido por ela caísse no chão, com força. Caiu mole, inerte, desprovido de vida.

Os músculos da minha face se descontraíram, lágrimas desceram de meus olhos. Respirei fundo, olhando para aquela criatura à minha frente. Ela foi jogada na terra, coberta por um líquido incolor e viscoso. Sua pele era absurdamente branca, seu cabelo extremamente pálido. Seus olhos não eram azuis, mas tristes e sem pupilas.

Chorei, abraçando aquela pessoa que nem conhecera direito, mas que planejara como uma esposa. Caí em prantos por aquela alma pura: tão pura que já nascera sem vida.

15/07/2009

O Espelho do Dr. Gunguinau

O cachimbo caiu sobre o chão, depois de escorregar entre os lábios frouxos do Dr. Gunguinau. Os músculos do homem enrijeceram quando, postado em frente ao espelho, levou o maior susto de sua vida.

Do outro lado daquela placa espelhada e de forma oval, estava um quarto que não era o de costume. Ao invés da cama, uma estante cheia de livros; no lugar de sua bancada de trabalho, cheia de tubos de ensaio e pilhas de papel, uma lareira que queimava em chamas fortes.

Gunguinau esfregou os olhos, perplexo, esperando voltar a ver o reflexo normal de seu próprio quarto. Não adiantou em nada, porém.

Seus conhecimentos químicos e físicos não eram suficientes para resolver tal mistério. Exatamente por esse motivo, só podia especular. Será que estava ficando louco? Como, se tudo ao redor parecia tão comum?

Por todo esse tempo, ficou parado, assustado, tentando chegar, por um caminho óbvio, a uma resolução lógica do problema que acabara de aparecer. Foi quando, de repente, caminhando pelo quarto desconhecido que se projetava na sua frente, apareceu um cachorro. Gunguinau ficou olhando para ele, como se fosse apenas uma pintura que se movia.

No entanto, o animal lhe retribuiu o olhar. Abanou o rabo, latiu algumas vezes ― o som dos latidos podia ser ouvido! ―, mas não ameaçadoramente, e foi em sua direção. É claro que o Dr. Gunguinau pensou que o cachorro pararia no limite do espelho, antes de entrar em seu quarto.

Enganou-se. O cachorro deu um salto e caiu em pé sobre as tábuas de madeira que forravam o chão. Latiu mais uma vez.

O Doutor, mais espantado do que nunca, abaixou-se, apoiado sobre um dos joelhos, e acariciou o focinho do bicho. Desta vez não duvidou de que poderia tocá-lo. O animal retribuiu a atenção com algumas lambidas em seu braço.

― Gus! ― Alguém chamou, fazendo com que Gunguinau se levantasse. ― Gus, cadê você, garoto?

Era, sem sombra de dúvida, a voz de uma criança. Olhou para trás, procurando em seu quarto, mas não havia ninguém ali. Por trás da imagem do espelho, no entanto, podia-se vislumbrar um menino vestindo uma camisa listrada, portando, em sua mão, um estilingue. Seus olhos se arregalaram, quando viu o adulto que estava olhando para ele.

― Quem é você? ― Perguntou o garoto, com a voz trêmula. Gunguinau, tão abismado quanto o garoto, não respondeu.

O cachorro pulou de volta para seu quarto, de modo que seu dono o recebesse, agachado. O garoto, sem saber o que fazer, resolveu utilizar a única arma que possuía.

Pegou o estilingue, que armou com uma pedra encontrada em um dos bolsos da calça. Ficou segurando o elástico, esticado, sem atirar. O cão latiu, consentindo com a opção do menino.

Gunguinau ficou parado, inexpressivo, enquanto a pedra estava prestes a acertar seu rosto.

― Não faça isso... ― Tentou dizer, na última hora, mas as palavras foram em vão. O projétil voou, enquanto o elástico se contraía, voltando ao seu estado normal.

Um estalido foi ouvido, junto ao som de vidro se quebrando. O espelho parecia espatifar-se, mas como se houvesse uma segunda camada que, ao passo que cada estilhaço caia, dava espaço a outra imagem.

Quando todos os cacos chegaram ao chão, o Dr. Gunguinau pôde, novamente, ver o reflexo de seu próprio quarto, como de costume, sem nenhum garoto ou cachorro.

Suspirou, pensando naquele universo que, tão subitamente, havia aparecido e, tão rapidamente, havia sumido. Pensou no que acabara de acontecer ― Um fenômeno inexplicável para qualquer químico, físico, sacerdote ou entidade. Ainda inexplicável, pelo menos.

15/06/2009

A Espada de Ankhnar

Desafyo da Rita Maria. (Escrever conto com o título "A Espada de Ankhnar").
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Ankhnar era meu inimigo dentre os aliados. Usávamos o mesmo brasão na armadura, nas batalhas, servíamos ao mesmo senhor, matávamos sempre os mesmos homens e defendíamos sempre as mesmas famílias. No entanto, uma apatia habitava nossos corações e, sempre que passávamos um perto do outro, havia discórdia entre nós.

Uma cicatriz que descia da têmpora ao queixo era uma marca da nossa inimizade. Estávamos bêbados, no dia em que fui ferido pela primeira vez por sua espada. Talvez por estar mais sóbrio do que eu, Ankhnar não pode exibir nem um arranhão.

Este era um dos motivos por eu persistir em meu ódio àquele homem. A humilhação de ser derrotado pelo meu maior rival.

***

Certa vez, avistamos um grupo de forasteiros armados, ao longe, dentro de nossas terras. Houghnere, meu senhor, mandou que me chamassem no meu posto.

- Alcten, quero que, junto a Ankhnar, vá perseguir os forasteiros e que descubra o motivo de suas presenças, em nossos territórios. - Disse. Era velho, tinha uma barba espessa, mas não longa, e cinzenta como o céu de um dia chuvoso.

- Sim, senhor. - Respondi, ajoelhando-me e abaixando a cabeça, como um sinal de respeito e obediência.

Na realidade, fingi normalidade. Uma missão com Ankhnar... Eu sabia que não acabaria bem.

***

Maior do que o ódio que eu tinha por Ankhnar era a aversão que eu guardava pela lâmina de sua espada. A lembrança do fio cortante sobre meu rosto, arrastando e rasgando, fazia-me arder a cicatriz e tremer o corpo.

Quando fui contatá-lo da obrigação, ele já ia tirando a espada da bainha. Estava na praça da cidade, onde não havia praticamente ninguém.

- O que você quer, Alcten? - Disse, em tom de ameaça. Eu tinha certeza de que a nossa raiva e rancor um pelo outro eram iguais, mesmo que só eu tenha na pele a marca desta rivalidade.

- Houghnere quer que galopemos juntos para caçar forasteiros. - Contei resumidamente sobre a visão da sentinela, em tom seco e nada amigável. Ele riu, debochando. Tinha cabelos dourados e curtos. A cara era limpa e sem barba, e quem o visse poderia achar que era um homem bom, digno de um herói sobre o qual falam os bardos da rainha, mas na verdade seu caráter era inferior ao de uma mosca. - Não vou galopar ao seu lado. Nem eu e nem meus homens.

- É uma ordem de Houghnere. - Falei, ainda que em vão. Ankhnar balançou sua espada, em que o sol bateu, produzindo um clarão. A luz ofuscou minha visão e eu, além de cego, começava e ter calafrios constantes produzidos pela presença daquela lâmina.

Quando comecei a enxergar melhor, retirei meu pequeno machado do cinto. Meu inimigo sorriu, prevendo adrenalina. Não falamos mais nada a partir daí.

Ele golpeou primeiro, estocando em direção ao meu peito. Pulei para trás, evitando que a ponta da espada perfurasse minha armadura. Movimentei meu machado, dando um passo à frente, em direção ao seu pescoço. A lâmina da espada de Ankhnar pôs-se na frente, e eu tive que recuar minha arma.

Resolvi optar pela velocidade, girando e golpeando pelo outro lado. Teria acertado sua bochecha, se a espada novamente não tivesse servido se escudo. Ankhnar defendia aparando o machado pelo seu cabo, ou seja, convertendo a minha força na destruição da madeira. Em seguida, ele atacou de cima para baixo, e quase partiu meu crânio em dois, mas eu consegui, mais uma vez, desviar.

Percebi a chance de me erguer na luta. Com toda a força que eu tinha, esquecendo-me do cabo que se tornou frágil, ataquei seu braço. A lâmina do machado acertou seu pulso, arrancando a mão direita de Ankhnar, que segurava a espada.

Minha arma se partiu, e a cabeça de metal caiu no chão, inutilizada. Meu oponente gritou de dor, e eu, com um sentimento indescritível de júbilo, arranquei da mão caída a espada que ainda era agarrada com força.

Erguendo a lâmina, gargalhei. Estávamos sozinhos quando a luta começou, mas, àquela altura, a praça estava repleta de espectadores. Desci velozmente a espada contra sua cabeça, sentindo prazer em ver seu rosto apavorado.

Quando o fio estava a poucos centímetros de Ankhnar, fui bloqueado por uma barreira invisível, dura como pedra, que não deixou que eu matasse meu inimigo. Quando percebi uma contra-força, entendi. A espada é que se movia para longe de seu dono. Aquela era uma lâmina viva, e eu não poderia lutar contra qualquer tipo de magia que houvesse nela. Deslocando-se aleatoriamente, a espada carregava meu braço, ainda que rígido, para todos os lados.

Enquanto eu batalhava contra uma arma autônoma, Ankhnar se levantava. Pegando a cabeça do meu machado, que repousava sobre o chão, abandonada, avançou contra mim. A espada me fez girar e ficar de costas para seu dono.

Por que eu não larguei a espada? Temia que, se eu largasse, a lâmina se movimentasse sozinha contra meu pescoço, e seria mais difícil de me defender. De qualquer modo, não havia uma escolha melhor.

Ankhnar, com a mão que sobrou, enterrou a lâmina de minha própria arma em minha nuca. Berrei, soltei a espada e cai.

***

Agora estou deitado, com a cabeça destruída, o sangue escorrendo de uma fenda vermelha e tenebrosa. Estou ciente de que morrerei a qualquer momento e, com um aperto no coração e com um sentimento indecifrável dado pela minha derrota, torço para que a inconsciência chegue logo.

Morrerei de maneira desonrosa, culpa de uma espada! Arma leal ao dono... Os bardos cantarão, a partir de hoje, sobre o grande Ankhnar e sua espada leal.

11/06/2009

A Sala das Garrafas


Billy sempre quis saber o que havia naquele quarto mal iluminado, em que seu pai entrava toda noite. Sabia que tinha alguma coisa a ver com garrafas, pois o homem sempre levava caixas e caixas delas para dentro da sala. Não, não eram garrafas de bebidas alcoólicas. Ao menos não quando as via, pois estavam sempre vazias.

Poderia supor que fosse qualquer coisa normal, mas o que lhe intrigava era o fato de seu pai proibi-lo de entrar lá. Se fosse algo comum, Billy poderia ver e entrar na sala quando quisesse. O que seu pai estaria fazendo lá dentro, sempre que chegava do trabalho? Aliás, Billy nem sabia o trabalho que o pai realizava fora de casa. E não ousava perguntar.

Não que seu pai fosse ruim com ele. Na realidade, era até um bom pai. Como o garoto nunca tivera uma mãe ― sempre ouvia do pai, quando perguntava, que ela havia morrido quando ele nascera. ―, o homem cuidava duplamente dele. Mas Billy notava certa agressividade quando, antes dos dez anos, indagava seu pai sobre aquela sala. Aprendeu a não fazer mais perguntas, depois disso e, aos doze anos, vivia como se aquele quarto não existisse.

Não quer dizer que ele ainda não sentisse curiosidade. Muitas vezes prestava atenção se o seu pai deixaria a porta destrancada, ou se colocaria a chave em um lugar acessível. Mesmo assim, nunca teve sucesso. De alguma forma, o homem nunca se esqueceu de passar à chave a porta e de guardá-la em seu bolso.

O garoto pensou que nunca ficaria sabendo, mesmo quando atingisse a maioridade. Pensou que o pai lhe esconderia aquilo para o resto da vida, e que só deixaria de impedir a entrada do filho quando morresse.

Felizmente para Billy, seu pai não era infalível, como pensava antes. O homem saiu de casa, um dia, trancando a porta da saleta secreta e andando apressadamente.

― Billy! ― Gritou. Seus pés faziam sons rápidos contra o piso de madeira. O garoto ficou atento. ― Não saia de casa, está me ouvindo? E não faça nada de errado!

― Tudo bem, pai...

― Tenho que resolver umas coisas no trabalho. ― Continuou. Já abria a porta dos fundos.― Volto em algumas horas.

O homem saiu, então, deixando a casa em um quase-silêncio. O único som que podia ser ouvido era o de um tilintar de metal fino. Uma chave, provavelmente. De onde vinha?

Billy saiu de seu quarto, onde montava um modelo de avião. No fim do corredor, estava a porta do quartinho proibido, trancada. Seu pai nunca se esquecia de trancar... Estava, de fato, trancada, mas alguma coisa diferenciava aquela visão. Enterrada no buraco da fechadura, reluzindo com a pouca luz do corredor, estava a chave que poderia abri-la. De lá vinha o som de metal se chocando.

Ele correu até lá, sem conseguir conter a curiosidade. Girou a chave, depois a maçaneta, e abriu a porta. Aquele era um momento único em sua vida, e não poderia perdê-lo, mesmo que trouxesse conseqüências desagradáveis.

Buscou o interruptor ao lado da porta, imediatamente, acendendo uma luz fraca sobre sua cabeça, que piscou e estalou até ficar estática. O ambiente tinha um cheiro desconhecido por ele, mas que lembrava o de cortes na pele depois de alguns dias, antes de criar casca e se cicatrizar. Isso dava uma sensação incômoda a Billy.

A primeira coisa que vira, ao entrar, fora um farto conjunto de garrafas. Não estava, pois, totalmente enganado. Várias garrafas postas lado a lado sobre estantes de ferro que ocupavam quase todas as paredes. Também percebeu que a sala era maior do que ele pensava, tendo espaço para um balcão comprido, repleto de maquinarias e ferramentas indescritíveis e de finalidade impossível de se imaginar. Havia no balcão, também, um tanque.

Algumas garrafas vazias estavam empilhadas no chão, ou dentro de caixas. Após olhar sem muita minúcia tudo o que havia no quarto, resolveu explorar as estantes.

Chegou mais perto das fileiras de garrafas, apertando os olhos para enxergar naquela má iluminação. Todas elas, sem exceção, estavam cheias de um líquido de coloração indefinida. Praticamente todos os recipientes continham algo mais sólido em seu interior. Variando seu tamanho, coisas rosadas e que pareciam conter braços e pernas encolhidos estavam mergulhadas naquela solução.

Mas que diabos seu pai estava criando ali? Billy nunca imaginaria que fosse algo tão estranho... Quando observou melhor, olhando para uma garrafa em que a criatura era maior, pode descobrir, com espanto, que seu pai era louco. Algo absurdo, nojento, grotesco e obscuro se espremia naquela garrafa: um feto humano.

Não somente um, mas centenas. A sala estava envolta por bebês minúsculos e de aspecto quase vivo, aterrorizando mais e mais o garoto. Cada vez que movia seus olhos, vislumbrava novas dezenas de cadáveres infantis. Desorientado, tentou olhar de novo para as garrafas, a fim de descobrir se eram mesmo reais ou se apenas falsos.

Deparou-se com a mesma estante por onde começara a olhar. Percebeu que, dentre todas as outras garrafas, havia uma livre de qualquer feto. Continha apenas um líquido amarelado. Uma etiqueta estava colada no vidro, meio escurecida. Provavelmente aquela garrafa estava lá havia muito tempo. Talvez estivesse ali antes de Billy nascer.

Começou a tentar ler o que estava escrito na etiqueta. “7 DE ABRIL DE 1970”, conseguiu decifrar. Coincidência... Era o dia em que havia nascido, ou seja, o dia em que sua mãe, desconhecida, viera a falecer. Um arrepio percorreu seu corpo.

A curiosidade crescia cada vez mais, junto com o medo. Não agüentou a aflição e foi obrigado a continuar a leitura. Forçando ao máximo sua capacidade, conseguiu, pouco a pouco, ler todo o texto escrito da etiqueta. As letras escurecidas da tarja diziam:

“7 DE ABRIL DE 1970 – PROJETO BILLY”.


Descobriu que seu pai era sua mãe, e também que aquela sala era seu berço. Ficou sabendo também, e mais desolador de tudo, que aquela garrafa fétida era o útero que o tinha gerado.

17/05/2009

O Bongô Irreal

Há um tempo eu comprei um apartamento. Fui promovido na empresa em que trabalhava e, para fazer algo útil com meu mais novo e elevado salário, resolvi ter minha própria casa, ao invés de morar com meus pais para sempre. Minha intenção era deixar tudo com a minha cara e, como eu gostava de coisas velhas e cheias de histórias, fui correndo para um antiquário.

O local era cheio de móveis e outras peças, todos cheios de poeira e cheirando a mofo. No entanto, a atmosfera me agradava.

― O que procura, senhor? ― Perguntou-me o dono da loja. Era um velhinho de óculos redondos. Sua expressão mostrava esperteza.

― Procuro por algum objeto de decoração... ― Eu disse, dando uma olhada ao redor. O lugar era grande, de modo que eu demoraria para ver tudo. ― Alguma coisa com um valor histórico alto...

O homem me olhou, como se penetrasse meus pensamentos, estudando-me.

― Você parece gostar bastante de música... ― Disse, então. Eu não tinha falado nada, mas ele adivinhou o que eu queria: um antigo instrumento musical, ou coisa parecida.

― Sim, gosto...

Então ele me fez segui-lo por um labirinto de móveis, chegando a um lugar como os outros, mas predominado por artigos musicais. Retirou uma caixa, que abriu rapidamente, retirando um tambor duplo. Era um bongô.

Peguei os tambores, dei algumas pancadas na pele, fazendo emitir um som agradável.

― Pertenceu a Steve Blackheart, um poeta. ― Falou o vendedor. Eu desconhecia o nome. ― Uma vez, em uma apresentação, declamava seu poema. Era acompanhado por um amigo que tocava um grande contrabaixo e pelo próprio bongô. Mas sei que, certa hora, as luzes se apagaram, a música e a voz de Steve cessaram e um berro foi ouvido. Logo após, quando a luz voltou, o público pode ver que os artistas e os instrumentos tinham desaparecido.

― Então como conseguiu o bongô?

― Comprei de um fã. ― Continuou o velho. ― Ele me vendeu, falando que Steve o tinha encontrado e entregado pessoalmente o bongô a ele. A princípio duvidei, mas vi a assinatura, as marcas e tudo o mais... Era realmente de Steve.

Fiquei assustado. Será que eu deveria acreditar? Poderia muito bem ser uma história inventada pelo velho. Ou então ele mesmo foi enganado, e acreditava em tudo o que dizia.

― Quanto custa?

― Cinco dólares.

― Vou levar.

O velho colocou novamente o instrumento dentro da caixa, me entregou e, quando eu paguei, despediu-se. Fui embora, então, andando rumo ao meu apartamento.

Andei com pressa pela rua, louco para experimentar o som do meu mais novo “brinquedinho”. Cheguei em casa e corri para o meu quarto. Abri a caixa, retirei o bongô e me sentei sobre a cama, de pernas cruzadas, com os tambores no colo.

Batuquei até ficar com sono, então tomei um banho e fui dormir, antes colocando o instrumento sobre o armário da sala.

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Sonhei com coisas estranhas. Havia um homem com uma boina francesa na cabeça, tocando meu bongô, dizendo coisas. Eu ouvia e aplaudia , assim como todas as pessoas ao meu redor.

Depois eu era o artista, e eu mesmo batucava e declamava em frente a um imenso público. Então as luzes se apagaram, e o velho que me vendeu o instrumento riu da minha cara. Segurava um contrabaixo. Era a única coisa visível, e o que eu podia escutar era a coleção de acordes que ele tocava.

Então eu fui bater mais uma vez sobre a pele do bongô, mas ele não estava mais em meu colo. Ao invés disso, estava dentro de uma caixa, aos pés do velho.

Acordei assustado, sentando-me no colchão. O som das batucadas ainda estavam na minha cabeça. Podia ouvir nitidamente cada batida habilidosa.

Acendi o abajur na mesinha de cabeceira, esfreguei os olhos. De fato eu estava acordado, mas... E a música? Não era coisa da minha cabeça, não era uma continuação auditiva do sonho. Era um bongô sendo tocado, realmente.

Dei um pulo para fora da cama e corri para a sala. Assim que eu acendi a luz do cômodo, a batucada parou. O bongô estava no chão, ao lado de um caderno velho.

Fui até lá, com medo, e peguei o caderno. Li as primeiras páginas. Eram poemas, todos tristes, todos melancólicos. Como aquilo foi parar lá? E como o bongô saiu do seu lugar e foi parar no chão? Alguém tinha entrado em minha casa.

Coloquei o instrumento no lugar de costume e guardei o caderno em uma das gavetas da cômoda maior da sala. Voltei para a cama, com o intuito de dormir, mas deitei em vão. Fiquei acordado até o amanhecer, quando saí para trabalhar.

Minhas atividades não renderam, porque eu só pensava no que tinha acontecido à noite.

Enfim, voltei para casa, cansado e com sono. Passei em frente ao antiquário, onde o vendedor postado na porta, me cumprimentou. Eu devolvi o gesto, pensando se deveria ou não contar o que aconteceu. Fiquei quieto.

Quando abri a porta do meu apartamento, quase caí para trás. Estava de novo o bongô no chão, margeado por dezenas de folhas rabiscadas, que antes faziam parte de um caderno de poesias. Aproximei-me e vi que todas as palavras estavam cortadas, e que alguns papéis estavam amassados.

Xinguei baixo. Mas que brincadeira era aquela?

Peguei o bongô, enfiei dentro da caixa, coloquei todas as folhas soltas lá dentro, também, e saí de casa. Fui o mais rápido possível para a loja de antiguidades.

Chegando lá, vi que o velho não estava na porta. Entrei, com a caixa em mãos, passando pelo labirinto, procurando-o. Podia ouvir uma música. Alguém estava tocando um contrabaixo, ao que parecia.

Percorri vários caminhos, impressionado com o tamanho da loja, até chegar, com a ajuda da música, ao lugar onde ficavam os instrumentos. Sentado sobre uma cadeira, estava o velho, segurando um enorme instrumento, dedilhando as cordas.

― Olá, meu jovem! ― Disse ele, parando de tocar. Sorria, parecendo inocente. ― Vai levar mais alguma coisa, hoje?

― Não, eu...

― Um contrabaixo, talvez? ― Interrompeu-me. Dedilhou mais algumas notas. Era sem dúvida muito experiente. ― Este aqui pertenceu a um homem especial!

― Olhe, não quero nenhum instrumento. ― Eu falei, aumentando o tom da voz para que ele não começasse a falar de novo. ― Na realidade, quero devolver este aqui.

Estendi a ele a caixa. O homem a pegou, colocando no chão imediatamente. Não falou nada, apenas olhou para mim.

Sua expressão estava me dando medo. Ele tocou mais algumas notas, levando-me a entender a situação.

― Você...

― Sim, eu! ― Ele disse, então, gargalhando. ― Por que está com medo? Apenas um bongô!

― Não! Você era o amigo de Steve Blackheart! ― Falei, dando um passo atrás. Eu estava apavorado, na verdade.

― Olha, como é inteligente!

Andei mais uma vez para trás. Desta vez, fui barrado por alguma coisa. Pensei que fosse algum móvel. Virei-me para olhar, buscando o caminho certo.

― Steve, até que enfim! ― O velho disse. O que vi, e o que estava no meu caminho, era um homem de estatura mediana, usando uma boina na cabeça. Seus olhos estavam arregalados, e a boca aberta em um sorriso débil.

― Meu bongô, meu bongô! ― Disse o sujeito, como uma criança. ― Ele devolveu meu bongô!

― Steve, você não pode tocá-lo! ― O velho falou. Eu apenas observava, amedrontado. ― Não tente!

― Mas por que não? ― Steve disse, choramingando. ― É o meu bongô!

― O que está acontecendo? ― Perguntei, perguntando-me se estava sonhando ou se estava acordado. ― Esse é Steve Blackheart?

― Sim, é! ― O velho falou, indignado. Largou o contrabaixo, pegando a caixa e levando para longe do alcance do outro. ― Quer dizer, era!

― Como assim? ― Insisti. Minha cabeça girava. Steve acertou um soco no nariz do velho e arrancou a caixa de suas mãos. Enquanto o vendedor massageava a face, o louco abria desesperado o pacote.

― Nós sumimos. Desaparecemos juntos. Ele começou a tocar e, de alguma forma, fomos parar em um lugar estranho... Depois disso, ele enlouqueceu. Para falar a verdade, não sei até hoje como fui parar aqui. ― O idoso agarrou os braços de Steve, tentando impedir que ele tocasse o bongô. ― Vamos, ajude-me.

Mas eu não obedeci. Simplesmente fiquei parado, olhando tudo o que estava acontecendo. Steve novamente bateu no velho, fazendo-o recuar. Deu mais alguns pontapés, até derrubá-lo, e depois pisou em seu estômago.

― O bongô é meu! Meu e de mais ninguém!

O dono do antiquário gemia.

― Impeça-o! ― Gritou, com o ar que restava em seus pulmões. ― Não deixe que ele batuque!

― Por quê? ― Indaguei. De qualquer maneira, antes de esperar resposta e sem nem ao menos ver sentido naquilo, ataquei Steve. O homem estava se sentando, quase cruzando as pernas, pronto para colocar o bongô em seu colo. Acertei um chute em seu queixo, fazendo-o cair para trás. Ficou desacordado, pelo que parecia.

Fui até o velho vendedor, que estava deitado, com a mão na barriga.

― Você está bem?

― Acho que sim... ― Ele disse, rolando para o lado. Havia sangue em seu rosto. ― Não o deixe batucar, pois vai fazer você dormir e sonhar.

Não entendi. Imaginei que o velho fosse louco, também. No entanto, resolvi ajudá-lo. Virei-me para trás, no impulso de pegar o bongô para destruí-lo mas, quando me aproximei, Steve se sentou, batendo uma vez em um dos tambores.

― Mas... ― Comecei. Teria terminado, mas fui tomado por um sono extremo. Era como se eu tivesse sido transportado bruscamente para meu sonho. Nele, eu era Steve.

Eu estava ajoelhado em um quartinho escuro. Um contrabaixo tocava, em algum lugar. Na minha frente, havia um bongô. Bati uma vez, e mais outra, e ainda outra, de modo que, em poucos segundos, eu estivesse compondo uma música inimaginável.

Uma gargalhada se misturou à música, e eu senti vontade de rir também. Mas eu mesmo é que estava rindo. As notas martelavam em minha cabeça, o velho vendedor gritava, na minha frente.

Em um instante, tudo sumiu. A música parou, eu não era mais Steve. Eu era eu mesmo, deitado no chão do antiquário, extremamente lúcido. Um grande e pesado armário havia caído sobre o poeta, que estava impossibilitado de continuar a melodia. O idoso não estava acordado, ainda.

Fui em direção ao percursionista, retirando de cima dele o móvel. Estava atordoado e falando palavras incoerentes. Ao invés de socorrê-lo, peguei o bongô, que estava caído ao seu lado. Busquei um candelabro, à minha esquerda, e o ergui sobre minha cabeça. Tinha que dar um fim àquilo.

― Não! Não! ― Steve gritou, desesperado. Tentou pular em cima de mim, mas eu desci o candelabro contra a pele do tambor direito do bongô, fazendo-o dar um berro histérico.

Quando golpeei a outra pele, Steve pareceu se desfazer como fumaça. Mas uma fumaça sólida, azulada. Aliás, não só Steve, mas tudo ao meu redor. Senti minha visão apagando, meus sentidos se esvaindo...

Parecia ter ficado daquele jeito por horas mas, quando voltei a mim, tomei um susto.

Eu estava em pé na calçada, de frente para a entrada do antiquário. Na realidade, não era o antiquário. Não havia nada ali, além de tábuas pregadas, podres de tão velhas, barrando a entrada, como se nunca houvesse a loja ali.

Sacudi a cabeça, ciente de meu delírio. Olhei para baixo, com o intuito de verificar se havia um chão abaixo de mim. Eu estava desorientado.

Aos meus pés, estava um papel.

Abaixei para pegar e vi, ainda que tonto, que era um pedaço de um velho caderno. A página, rabiscada em alguns pedaços, mostrava a letra de Steve Blackheart.

A partir daquele ponto, vivi sem saber se tudo havia acontecido de verdade...

06/01/2009

Portas Abertas

Abro aqui as portas para meu novo blog: Caos Neural.
Aqui, pretendo postar textos, contos, versos, artigos... Será uma ótima ferramente de publicação, creio eu.
Entrem e fiquem à vontade.