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3 de set de 2010

Ebooks e Publicação Independente

Já está sendo dito que os livros digitais substituirão definitivamente os de papel. Se for verdade − ou mesmo que a produção de ebooks se torne maior do que a de livros físicos −, o mercado de textos terá, obviamente, mudanças realmente significativas. Pelo olhar do leitor, a facilidade de obtenção de livros, o preço mais baixo − explicado pelo corte dos custos com impressão − e menor espaço de armazenamento, já que será possível guardar mais de mil livros em um único aparelho.
    Para as grandes editoras, claro, também deverá ser mais cômodo. Sem a impressão de páginas, o custo de produção será bem mais baixo, de modo que os livros possam ser vendidos com um preço proporcionalmente mais em conta para o leitor, mas que dê um lucro maior para os editores e para o autor da obra. Isso dará menos incerteza, no caso, com relação à publicação de bons autores internacionais, embora os direitos autorais não tenham seu preço alterado.
    E, por falar no autor, como será para ele? Não, não aquele que é dono de algum best-seller mundial, que já tem seu nome na boca dos adolescentes e pseudo-intelectuais de meia idade e ganha milhões com sua obra. Refiro-me ao pequeno autor, o que publica por uma pequena editora, que alcança um pequeno público. O que primeiro vem à mente, com certeza, é que ficará bem mais fácil de se publicar. Além do fato de que ebooks poderão ser construídos em casa, através de softwares que, provavelmente, virão a ser programados para este fim, será muito menos arriscado para uma editora aceitar a publicação de um autor desconhecido.
    Agora, vamos separar os dois efeitos. No caso do autor que vai publicar de forma totalmente independente, que vai vender o produto por conta própria e que não se importará com isso, poderá ser maravilhoso. Sim, para o autor sem tanta ambição ou com um senso de realidade deturpado. Por este ângulo, pode parecer perfeito: todos publicando o que quiserem, sem se importar com muita coisa, querendo apenas distribuir sua obra. Mas isto é realmente bom? O primeiro perigo é que o autor pode ser fraco e inexperiente, ou seja, a obra que ele vai publicar será ruim. Depois, os cuidados com revisão serão poucos. Dificilmente haverá empresas fazendo o papel das gráficas, ou seja, recebendo do escritor para fazer a impressão − no máximo empresas e profissionais independentes especializados em “montar” ebooks e distribuir, o que será, com certeza, imensamente mais barato.
    E as editoras do tipo “pagou-publicou”? O ponto positivo é que elas perderiam a desculpa de cobrar para “arcar com a impressão”, etc. Como não fazem divulgação, mesmo, cobrar para colocar contos em uma coletânea, por exemplo, seria de intenções ridiculamente explícitas. A única coisa que fariam, seria diagramar e revisar − isto se realmente o fizer.
    Desta forma, o “poder” de publicar qualquer coisa poderá ser uma epidemia perigosa: imagine um monte de autores ruins tentando vender suas obras ruins para qualquer leitor, que, iludido, pode vir a comprar a obra e gastar dinheiro à toa. Imagine milhares de editoras surgindo e publicando um monte de lixo literário. Tudo isso sem a mínima dificuldade − nem que seja financeira.
    Sim, dificuldade nem sempre é ruim. Afinal, é ela que nivela a qualidade de uma obra. Isto já foi bem falado. É claro que coletâneas fáceis de se entrar obviamente terão mais textos ruins do que coletâneas mais rígidas. Com a facilidade extrema produzida pela digitalização total dos livros, o mercado está muito mais propício a receber obras de baixo nível, obras que, até agora, não conseguiram seu lugar. E que nunca deveriam conseguir, a não ser que fossem melhoradas.

31 de ago de 2010

Mudanças no blog.

    Como já devem ter percebido, não há sequer um conto no blog. Pois é: apaguei todos eles. Primeiro, porque pretendo revisar e/ou reescrever quase todos. Depois, porque, de qualquer maneira, não quero mais colocar meus contos expostos na internet, desta forma. Isto aconteceu, principalmente, depois de ler um post do Tibor Moricz, em seu blog.
    A partir de agora, pretendo enviar meus contos apenas para certas pessoas, a fim de melhorá-los e corrigir erros frequentes, e para que possam, talvez, ser enviados para boas coletâneas. De qualquer forma, obrigado a quem leu e comentou as postagens até agora.
    Para quem quiser ler, continuarei postando resenhas, notícias, divulgação, etc. Se puderem continuar me dando apoio também nestas atualizações, ficarei satisfeito
Abraços.

12 de jul de 2010

Resenha: Annabel & Sarah, de Jim Anotsu



“Annabel & Sarah” é uma sopa de letras. Jim Anotsu tem uma história criativa, narrada com maturidade, e utiliza, como tempero especial, as várias referências que podemos encontrar pelo romance: livros, escritores, músicas, bandas, filmes, etc. Com certeza o leitor vai reconhecer algumas − ou muitas − destas referências.
    O romance conta sobre duas irmãs: Annabel, roqueira, revoltada, com respostas venenosas na ponta da língua, e Sarah, uma patricinha com não menos personalidade. Depois de uma discussão desagradável em um bar abandonado, Sarah é puxada para dentro de uma televisão, e Annabel, para poder resgatá-la, deve levar para Estrela da Manhã − a culpada pelo rapto de sua irmã gêmea − a flor Amor-Perfeito. Desta forma, a garota é enviada a um mundo habitado por réplicas humanóides de animais. A primeira pessoa que conhece é Dean − homenagem clara a Dean Moriarty, personagem de “On the Road”, do Jack Kerouac −, leva Annabel até Op Spade, um lobo detetive. Ele é quem vai ajudar Annabel a encontrar a flor.
    Ao mesmo tempo, temos a trajetória de Sarah. Assim como a irmã, ela vai parar em outro mundo. Neste lugar estranho, mais especificamente em “Allegria”, uma cidade governada por Gioconda, que obriga, através de leis severas e uma torta mágica anti-depressiva, todos os moradores a serem felizes. Não demora para que Sarah caia nas garras da tirana. Mas, para alívio de Sarah, há alguém nesse mundo de inimigos sorridentes que quer ajudá-la: Beatrice, a pequena filha de Gioconda.
    A primeira coisa de que lembrei quando comecei a ler o livro foi “Alice no País das Maravilhas”. Aquela atmosfera estranha e colorida, a anormalidade dos personagens secundários e a estranheza das situações. Isto faz com que o livro seja especialmente interessante.
    Algo que eu mudaria, no entanto, é o abuso de referências. Não me refiro àquelas como nomes de personagens, cidades e objetos, mas as mais diretas. O nome de uma banda, o nome de um CD, de uma música. Creio que Jim poderia ser mais sutil nestas horas.
    Algo que me incomodou um pouco, também, foi a falta de vírgulas. Em algumas partes fica até um pouco difícil de pegar de imediato o sentido da frase. Nada absurdo, também. Nada que prejudique a grandiosidade desta pequena história.
    Enfim, “Annabel & Sarah” é um tanto lisérgico.

29 de jun de 2010

Resenha: A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr



Primeiramente devo dizer que este livro quebrou um preconceito meu. Não quanto a livros nacionais, claro. Afinal de contas, também escrevo, quero dizer, também quero ser escritor. O preconceito ao qual me refiro é o que tinha sobre histórias baseadas na mitologia cristã.

    Confesso que quando meu primo me emprestou o livro, já senti certa desconfiança por causa do título, que se refere a um acontecimento originalmente bíblico. Temi que o romance fosse uma ladainha chata, cheia de lições de moral chatas e de proselitismo chato. O que encontrei, no entanto, foi uma história que poderia ser taxada de “herética” por muitos fanáticos.

    Em “A Batalha do Apocalipse”, Eduardo Spohr conta sobre Ablon, um anjo renegado. Isto quer dizer que foi expulso do céu por se rebelar contra o Arcanjo Miguel, que é o cruel ditador do paraíso. O fato ocorreu por causa de uma traição de Lúcifer, o irmão de Miguel, que também teve sua queda, depois de certo tempo. Junto a ele, todos os seus seguidores também caíram.

    Desta forma, Ablon é obrigado a viver na Terra, sem chances de voltar para o mundo espiritual. Assim, conhece Shamira, a feiticeira de En-Dor. Isto acontece em Babel, quando Ablon tenta salvar Ishtar, a última renegada, além dele.

    Depois de Babel ir abaixo, os dois tem seus destinos unidos. Separando-se e se encontrando ao longo de todo o livro, através de histórias alternadas, ambos passam por situações definitivas para a história, esperando o Juízo Final e trabalhando contra a vontade do Arcanjo Miguel, que tem como objetivo a destruição de todos os humanos. Shamira, agora, é a feiticeira mais poderosa do mundo, sendo imortal, inclusive.

    Além disso, o livro tem situações passadas no Inferno – com ou sem a presença de Ablon –, no Paraíso e em vários lugares da Terra. Ablon e Shamira presenciam cada momento importante da nossa história, conhecendo personagens interessantes e consideravelmente importantes para a trama. A história principal se desenrola em presente assolado por guerras e pela mesquinharia humana.

    O mais impressionante é que o autor, em seu romance de estréia, escreve mais de 500 páginas sem deixar o livro monótono, conseguindo não se desviar da linha principal em uma história tão grande, o que é um feito um tanto raro.

    A narrativa é bem profissional – e me lembra um pouco a do Bernard Cornwell, em certos momentos – e a revisão foi bem feita, ou seja, equívocos gramaticais são bastante escassos. Há alguns poucos erros de continuidade, o que é quase inevitável em uma história tão grande. Como crítica, digo que certos – poucos – momentos são um tanto piegas – em alguns diálogos, por exemplo, quando Ablon fala de seu objetivo de forma um pouco “emocionante demais” –. Não gostei muito, também, do fato de os anjos dizerem o nome do encanto para executá-los. Fez me lembrar de “Cavaleiros do Zodíaco”. Não é nada demais, até porque é realmente pessoal, mas não me agradou.

    Enfim, a forma como Spohr passa pela história, com seus personagens quase imortais – tratando-se de idade – é bem agradável. Dá vontade viver para sempre, presenciando muita coisa que não poderemos presenciar. Talvez tenha sido o que mais me fez gostar de seu livro.

25 de jun de 2010

Satisfações

Estou postando aqui só para esclarecer que não deixarei de postar para sempre. Podem ver que já modifiquei o layout milhares de vezes desde o último post, sobre o "Baronato de Shoah".

A explicação (simples e sincera): não estou tendo idéias para escrever. Aliás, tenho uma ou outra em minha cabeça, mas não consigo nem começar os contos. Além disso, tenho tentado decidir que romance escrever. No atual momento, estou com quatro idéias que não podem ser usadas em contos. Portanto, estou escrevendo o início de cada um para ver o que vai me agradar mais a escrever, para eu não ter que ficar cuidando de todos ao mesmo tempo, e diminuir as chances de eu ficar preocupado com outra história enquanto eu desenvolvo a que eu escolher.

Por isso, não estou postando. Qualquer dia, quando eu conseguir sobreviver à escrita de um conto, reviso tudo e posto aqui.

10 de fev de 2010

Sinopse: O Baronato de Shoah, de José Roberto Vieira



O romance de estréia de José Roberto Vieira é uma fantástica aventura em um mundo sombrio que remete ao Steampunk, videogames, animações e RPG, onde passado, presente e futuro se encontram numa fórmula emocionante.

Sehn Hadjakkis é um Mashiyrra, um Escolhido. Desde seu nascimento ele foi eleito para ser um soldado da Kabalah, a elite do exército e liderar as forças do Quinto Império contra seus inimigos, os Legisladores.

Depois de quatro anos de lutas, mortes, e traições, Sehn finalmente tem a chance de voltar para casa e cumprir uma promessa feita ainda na infância: se casar com seu primeiro e verdadeiro amor, Maya Hawthorn.

Entretanto, a única coisa que o impede é outra promessa, feita no leito de morte a seus pais: vingar-se de Edgar Crow, um amigo que traiu sua família e destruiu seus sonhos, transformando a vida de Sehn num verdadeiro inferno e o mundo em que vive um pesadelo.

Quando um Golpe de Estado ameaça tudo aquilo em que Sehn acredita, ele se vê obrigado a escolher entre uma destas promessas para salvar seu mundo ou a mulher que ama.

Se fizer a escolha errada, ele pode destruir a ambos.

Ou a si mesmo.

( Confira as primeiras páginas desta emocionante história AQUI )

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José Roberto Vieira foi uma idéia que quase deu errado. Encrenqueiro quando criança, afeto a péssimas companhias, relaxado, detestava ler. Até que, por acaso, teve contato com RPG e Literatura. Isso salvou sua vida. Sério.

Tem contos publicados no Anno Domini: Manuscritos Medievais (Editora Andross, 208), e na antologia Pacto de Monstros (Editora Multifoco, 2009).   Foi coordenador do blog “Nexus RPG” e criou os RPGs Éride e Taenarum, distribuídos gratuitamente pela internet.

14 de jan de 2010

Resenha: Os Grandes Símios, de Will Self


"Os Grandes Símios" talvez seja um dos livros mais loucos e insanos que alguém pode ler. No começo, o leitor pode ficar extremamente horrorizado com os termos e situações que Will Self dispõe no romance. É claro que isto não é, de forma alguma, um ponto negativo. Talvez para uns, sim, mas para os que admiram uma experiência literária semelhante a um sonho estranho e, ao mesmo tempo, real, o livro pode ser um banquete.

Esta é a história de Simon Dykes, um artista plástico residente de Londres, que, depois de uma noite cheia de bebida, drogas e sexo com sua namorada, Sarah, acorda em um mundo dominado por chimpanzés. Ao se deparar com a cena, principalmente com a de uma macaca-Sarah deitada em sua cama, Simon tem um ataque agressivo, de modo que um grupo de chimpanzés o busca e o leva para uma clínica psiquiátrica. Acontece que, neste mundo, Dykes é dado como um "chimp" louco que pensa ser um humano.

É depois disso que Zack Busner, um psiquiatra renomado, começa a cuidar de Simon, levando-o pouco a pouco a recuperar a sua "chimpunidade". Isso quer dizer que ele vai ter que aprender a aceitar o contato  com outros símios, voltar a ter controle sobre seu corpo e, principalmente, ver a si mesmo como um chimpanzé, e não como um homem.

Will Self trás em seu romance um coquetel de personagens singulares e bem construídos (embora muitas vezes bizarros), inversão de valores e pensamentos dignos de um psicopata, mergulhado em uma Londres verdadeiramente selvagem.

Uma observação interessante é que, ao longo da história, o leitor vai se acostumando (provavelmente) com o mundo de Self. As situações e os atos dos chimpanzés não parecem tão estranhos, de modo que a "chimpunidade" vai se assemelhando cada vez mais com a humanidade.

O que se pode perceber, muitas vezes, é que podemos ser (e somos!) tão selvagens e animalescos quanto os chimpanzés.