Páginas

Mostrando postagens com marcador Resenhas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Resenhas. Mostrar todas as postagens

12 de jul. de 2010

Resenha: Annabel & Sarah, de Jim Anotsu



“Annabel & Sarah” é uma sopa de letras. Jim Anotsu tem uma história criativa, narrada com maturidade, e utiliza, como tempero especial, as várias referências que podemos encontrar pelo romance: livros, escritores, músicas, bandas, filmes, etc. Com certeza o leitor vai reconhecer algumas − ou muitas − destas referências.
    O romance conta sobre duas irmãs: Annabel, roqueira, revoltada, com respostas venenosas na ponta da língua, e Sarah, uma patricinha com não menos personalidade. Depois de uma discussão desagradável em um bar abandonado, Sarah é puxada para dentro de uma televisão, e Annabel, para poder resgatá-la, deve levar para Estrela da Manhã − a culpada pelo rapto de sua irmã gêmea − a flor Amor-Perfeito. Desta forma, a garota é enviada a um mundo habitado por réplicas humanóides de animais. A primeira pessoa que conhece é Dean − homenagem clara a Dean Moriarty, personagem de “On the Road”, do Jack Kerouac −, leva Annabel até Op Spade, um lobo detetive. Ele é quem vai ajudar Annabel a encontrar a flor.
    Ao mesmo tempo, temos a trajetória de Sarah. Assim como a irmã, ela vai parar em outro mundo. Neste lugar estranho, mais especificamente em “Allegria”, uma cidade governada por Gioconda, que obriga, através de leis severas e uma torta mágica anti-depressiva, todos os moradores a serem felizes. Não demora para que Sarah caia nas garras da tirana. Mas, para alívio de Sarah, há alguém nesse mundo de inimigos sorridentes que quer ajudá-la: Beatrice, a pequena filha de Gioconda.
    A primeira coisa de que lembrei quando comecei a ler o livro foi “Alice no País das Maravilhas”. Aquela atmosfera estranha e colorida, a anormalidade dos personagens secundários e a estranheza das situações. Isto faz com que o livro seja especialmente interessante.
    Algo que eu mudaria, no entanto, é o abuso de referências. Não me refiro àquelas como nomes de personagens, cidades e objetos, mas as mais diretas. O nome de uma banda, o nome de um CD, de uma música. Creio que Jim poderia ser mais sutil nestas horas.
    Algo que me incomodou um pouco, também, foi a falta de vírgulas. Em algumas partes fica até um pouco difícil de pegar de imediato o sentido da frase. Nada absurdo, também. Nada que prejudique a grandiosidade desta pequena história.
    Enfim, “Annabel & Sarah” é um tanto lisérgico.

29 de jun. de 2010

Resenha: A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr



Primeiramente devo dizer que este livro quebrou um preconceito meu. Não quanto a livros nacionais, claro. Afinal de contas, também escrevo, quero dizer, também quero ser escritor. O preconceito ao qual me refiro é o que tinha sobre histórias baseadas na mitologia cristã.

    Confesso que quando meu primo me emprestou o livro, já senti certa desconfiança por causa do título, que se refere a um acontecimento originalmente bíblico. Temi que o romance fosse uma ladainha chata, cheia de lições de moral chatas e de proselitismo chato. O que encontrei, no entanto, foi uma história que poderia ser taxada de “herética” por muitos fanáticos.

    Em “A Batalha do Apocalipse”, Eduardo Spohr conta sobre Ablon, um anjo renegado. Isto quer dizer que foi expulso do céu por se rebelar contra o Arcanjo Miguel, que é o cruel ditador do paraíso. O fato ocorreu por causa de uma traição de Lúcifer, o irmão de Miguel, que também teve sua queda, depois de certo tempo. Junto a ele, todos os seus seguidores também caíram.

    Desta forma, Ablon é obrigado a viver na Terra, sem chances de voltar para o mundo espiritual. Assim, conhece Shamira, a feiticeira de En-Dor. Isto acontece em Babel, quando Ablon tenta salvar Ishtar, a última renegada, além dele.

    Depois de Babel ir abaixo, os dois tem seus destinos unidos. Separando-se e se encontrando ao longo de todo o livro, através de histórias alternadas, ambos passam por situações definitivas para a história, esperando o Juízo Final e trabalhando contra a vontade do Arcanjo Miguel, que tem como objetivo a destruição de todos os humanos. Shamira, agora, é a feiticeira mais poderosa do mundo, sendo imortal, inclusive.

    Além disso, o livro tem situações passadas no Inferno – com ou sem a presença de Ablon –, no Paraíso e em vários lugares da Terra. Ablon e Shamira presenciam cada momento importante da nossa história, conhecendo personagens interessantes e consideravelmente importantes para a trama. A história principal se desenrola em presente assolado por guerras e pela mesquinharia humana.

    O mais impressionante é que o autor, em seu romance de estréia, escreve mais de 500 páginas sem deixar o livro monótono, conseguindo não se desviar da linha principal em uma história tão grande, o que é um feito um tanto raro.

    A narrativa é bem profissional – e me lembra um pouco a do Bernard Cornwell, em certos momentos – e a revisão foi bem feita, ou seja, equívocos gramaticais são bastante escassos. Há alguns poucos erros de continuidade, o que é quase inevitável em uma história tão grande. Como crítica, digo que certos – poucos – momentos são um tanto piegas – em alguns diálogos, por exemplo, quando Ablon fala de seu objetivo de forma um pouco “emocionante demais” –. Não gostei muito, também, do fato de os anjos dizerem o nome do encanto para executá-los. Fez me lembrar de “Cavaleiros do Zodíaco”. Não é nada demais, até porque é realmente pessoal, mas não me agradou.

    Enfim, a forma como Spohr passa pela história, com seus personagens quase imortais – tratando-se de idade – é bem agradável. Dá vontade viver para sempre, presenciando muita coisa que não poderemos presenciar. Talvez tenha sido o que mais me fez gostar de seu livro.

14 de jan. de 2010

Resenha: Os Grandes Símios, de Will Self


"Os Grandes Símios" talvez seja um dos livros mais loucos e insanos que alguém pode ler. No começo, o leitor pode ficar extremamente horrorizado com os termos e situações que Will Self dispõe no romance. É claro que isto não é, de forma alguma, um ponto negativo. Talvez para uns, sim, mas para os que admiram uma experiência literária semelhante a um sonho estranho e, ao mesmo tempo, real, o livro pode ser um banquete.

Esta é a história de Simon Dykes, um artista plástico residente de Londres, que, depois de uma noite cheia de bebida, drogas e sexo com sua namorada, Sarah, acorda em um mundo dominado por chimpanzés. Ao se deparar com a cena, principalmente com a de uma macaca-Sarah deitada em sua cama, Simon tem um ataque agressivo, de modo que um grupo de chimpanzés o busca e o leva para uma clínica psiquiátrica. Acontece que, neste mundo, Dykes é dado como um "chimp" louco que pensa ser um humano.

É depois disso que Zack Busner, um psiquiatra renomado, começa a cuidar de Simon, levando-o pouco a pouco a recuperar a sua "chimpunidade". Isso quer dizer que ele vai ter que aprender a aceitar o contato  com outros símios, voltar a ter controle sobre seu corpo e, principalmente, ver a si mesmo como um chimpanzé, e não como um homem.

Will Self trás em seu romance um coquetel de personagens singulares e bem construídos (embora muitas vezes bizarros), inversão de valores e pensamentos dignos de um psicopata, mergulhado em uma Londres verdadeiramente selvagem.

Uma observação interessante é que, ao longo da história, o leitor vai se acostumando (provavelmente) com o mundo de Self. As situações e os atos dos chimpanzés não parecem tão estranhos, de modo que a "chimpunidade" vai se assemelhando cada vez mais com a humanidade.

O que se pode perceber, muitas vezes, é que podemos ser (e somos!) tão selvagens e animalescos quanto os chimpanzés.

30 de nov. de 2009

Resenha: Black Flag, de Valerio Evangelisti


Utilizando uma narrativa violenta e doentia, o italiano Valerio Evangelisti, autor da trilogia "Magus" e de "O Inquisidor" e "Correntes da Inquisição", constrói, a partir de três histórias alternadas, um livro inovador e marcante. O primeiro capítulo é o início de uma história, em um tempo mais próximo do presente, onde uma tragédia no Panamá, condicionada pelo ataque de estadunidenses, acontece. Há a presença de um grupo de prisioneiros americanos portadores da "porfiria", doença responsável por algumas lendas sobre lobisomens. Tal doença, na verdade, é um dos focos principais do livro. Esta história só tem continuidade no último capítulo.

Passada na Guerra da Secessão, a história principal, de capítulos maiores, conta a trajetória de Pantera, um pistoleiro mexicano, que também é um "palero", uma espécie de xamã. O feiticeiro é capturado por um bando de mercenários liderado por Jesse James, lendário cowboy de gatilho rápido. Acaba sendo tratado não como prisioneiro, mas como um membro do bando. Em meio ao caos de assaltos a fazendas e do escalpelamento de inimigos, Pantera conhece Koger, um sujeito possuidor de uma doença que o faz parecer um lobisomem, Molly, uma prostituta irlandesa que se apaixona por ele, Lobo Branco, um índio velho portador de um cachimbo capaz de proporcionar experiências psicodélicas, Bellegarrigue, um médico francês anarquista que pretende usar o bando para conseguir seu objetivo, e vários outros personagens insanos e absurdos.

A história que se mescla com a de Pantera se passa em um futuro distante, onde a terra, sobretudo "Paradice", a cidade em que vive Lilith, a protagonista, é habitada somente por loucos. A esta altura, a tortura e o sofrimento são encarados como formas de afeto, a morte é vista com indiferença e o estupro é corriqueiro. Todos são assim, sem exceção.

Considerado por alguns a obra lançada no Brasil mais próxima do New Weird, Black Flag quebra o conceito que costumamos ter sobre fantasia e ficção científica, reinventando e fundindo vários estilos de forma bastante efetiva.